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Capítulo 2

Em Meio ao Pesadelo

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6.998 palavras 30 de julho de 2026
A primeira coisa que senti foi o cheiro de terra molhada e sangue seco.

Não veio de uma vez. Chegou em camadas — primeiro o bolor úmido de madeira apodrecida, depois algo mais ferroso por baixo, quase adocicado, do tipo que o corpo reconhece antes que a mente aceite reconhecer. Abri os olhos devagar, e a cabeça latejou como se alguém tivesse passado a noite martelando meu crânio por dentro. Por um instante, tive certeza absoluta de que ainda estava deitado naquela planície infinita, com o capim me fazendo cócegas na nuca. Mas o teto sobre mim era de madeira rachada, cortado por vigas grossas e enegrecidas, e o que eu sentia sob o corpo não era grama — era terra batida, dura e fria.

《Consciência Superior》 《Bênção da Deusa》 Ativada.

As palavras se acenderam dentro de mim como se alguém tivesse aberto uma gaveta na minha cabeça e enfiado aquelas frases lá dentro sem pedir licença. Não era uma voz. Não era exatamente um pensamento meu, tampouco. Por um segundo, esqueci completamente onde eu estava — só existia aquele eco, estranho e mecânico, ainda reverberando.

— O que... foi isso...?

A própria voz me traiu. Saiu rouca, arranhada, como se não fosse usada havia dias. Tentei me mover e senti o aperto de cordas nos pulsos, presas atrás das costas. Só então percebi que não estava sozinho ali.

Ao redor, encolhidas contra as paredes de madeira daquele galpão maltratado pela pouca luz, havia outras pessoas. Uma dezena, talvez mais. Homens, mulheres, um par de crianças. Todos amarrados, todos com aquele olhar vidrado de quem já parou de esperar qualquer coisa boa acontecer. O ar era pesado — mofo, suor antigo, e por baixo de tudo aquele metal doce que eu preferia não identificar.

— Você acordou — sussurrou uma voz ao meu lado.

Virei a cabeça. Um homem mais velho, a barba crescida de forma irregular, uma cicatriz antiga cruzando a testa, me observava com uma mistura estranha de pena e cansaço — como quem já viu essa cena tantas vezes que nem se dá mais ao trabalho de sentir pena de verdade.

— Onde... onde eu estou? — perguntei, a garganta seca raspando cada palavra. — Que lugar é esse?

— Um dos depósitos deles. Não sei dizer a direção. — Ele falava baixo, quase sem mexer os lábios, do jeito de quem aprendeu, à força, a não chamar atenção. — Já perdi a conta de quantos dias faz.

Ele me estudou por um momento a mais, os olhos descendo devagar pelas minhas roupas — encarava meu uniforme escolar com uma curiosidade quase desconfortável, como se nunca tivesse visto um tecido cortado daquele jeito, e meus sapatos claramente não pareciam ter saído das mãos de nenhum artesão dali.

— Essas roupas... — murmurou, franzindo a testa. — Você é nobre? Ou serve a alguma casa importante?

— Eu... não sei do que o senhor está falando — respondi, e a confusão, por um instante, pesou mais até que o próprio medo. — Eu não sirvo a ninguém. Eu nem sei como vim parar aqui.

Ele me encarou mais um pouco, como se pesasse se acreditava ou não, e por fim só balançou a cabeça, devagar, sem dizer mais nada.

Um grito cortou o silêncio do galpão — agudo, curto, cortado no meio, vindo de algum lugar lá fora. Ninguém se moveu. Ninguém reagiu. Como se aquilo já fosse parte da rotina, algo tão comum quanto o vento batendo na madeira.

A porta rangeu e se escancarou de uma vez, deixando entrar uma luz cinzenta de fim de tarde e três figuras cobertas por armaduras remendadas — peças de origens diferentes, costuradas juntas como se tivessem sido tiradas de uma dúzia de cadáveres distintos. O que vinha na frente carregava uma cicatriz que atravessava o rosto inteiro, do queixo até a sobrancelha, e sorria de um jeito que não tinha nada de gentil nele.

— Peguem todos — disse, sem erguer a voz, como quem repete uma ordem pela centésima vez —  Vamos ver quem ainda serve pra alguma coisa.

Os dois capangas avançaram sem cerimônia. Puxaram as duas mulheres da frente pelos cabelos, enquanto passavam chutando aqueles que hesitavam em se levantar, arrancavam corpos do chão com uma brutalidade tão mecânica que mais parecia turno de trabalho do que crueldade. Uma mulher tropeçou e recebeu um pontapé nas costelas que a fez gritar e se encolher ainda mais, antes de ser erguida à força pelo braço. Uma criança chorava, agarrada à mãe — nem isso poupou os dois de serem separados aos empurrões.

Ninguém interferiu. Ninguém podia.

— Esse aqui — disse um dos capangas, me segurando pelo colarinho e apontando para o homem da cicatriz. — É o das roupas esquisitas, chefe.

Ele se aproximou, agachou-se na minha frente e segurou meu queixo com dedos ásperos demais, virando meu rosto de um lado para o outro como quem examina uma peça de museu.

— Interessante. — A voz baixa, quase pensativa, os olhos fixos no tecido do meu uniforme. — Nunca vi um corte de roupa desses. Nem um tecido desses. — Soltou meu rosto e se recostou nos calcanhares. — Você serve a algum nobre? Alguma casa? Alguma família importante?

— Eu já disse... eu não sei do que vocês estão falando. — Tentei manter a voz firme. Não consegui muito bem. — Eu não sei onde estou. Eu não conheço nenhum nobre. Eu só quero ir embora.

O sorriso dele murchou.

— Que perda de tempo. — Se ergueu devagar. — Mas a gente tem um jeito de fazer as pessoas lembrarem de detalhes que "esqueceram". Tirem todos daqui. Vamos acabar logo com isso.

Fui erguido do chão aos puxões, junto com o resto do grupo, e empurrado porta afora.

O ar frio do fim de tarde bateu no meu rosto assim que saímos. Não havia paredes ali fora — só um campo aberto atrás da construção, cercado por uma paliçada de madeira mal alinhada, o chão coberto por uma lama escura demais para ser só terra. No centro daquele espaço esperava um cepo gasto e escurecido, e ao lado dele, imóvel como uma estátua, um homem enorme numa máscara de couro cru segurava um machado cujo cabo era quase da altura de uma pessoa.

Ninguém precisou explicar o que aquilo significava. O corpo entende essas coisas antes da mente aceitar.

Separaram as mulheres mais jovens do resto do grupo e as jogaram dentro de carroças que partiram no instante seguinte, rodas rangendo contra a lama. Dos que restaram ali, só sobraram os homens e algumas mulheres mais velhas.

— Esse primeiro — disse o homem da cicatriz, apontando pra mim.

Dois capangas me arrastaram até a frente da fila e me forçaram a ajoelhar na lama, os braços ainda presos atrás das costas. Ele se abaixou de novo à minha frente, mas dessa vez os olhos vinham duros, sem nenhum resquício daquela curiosidade de antes.

— Última chance — disse. — Eu não tenho mais tempo para perder com brincadeiras, garoto esquisito.

— Eu não sei — respondi, e a voz tremeu apesar de mim mesmo. — Eu juro que não sei de nada disso.

O soco veio antes que eu terminasse a frase. A dor explodiu quente na bochecha, e o gosto de sangue encheu minha boca de uma vez.

— De novo. — A voz dele nem se alterou. — Quem é você.

— Eu não sei! — E dessa vez foi um chute nas costelas que me derrubou de lado na lama, o ar sumindo dos pulmões todo de uma vez, como se alguém tivesse fechado uma torneira.

Foi ali, engasgado, com o gosto de sangue e terra na boca, que me lembrei daquela voz.

Consciência Superior, chamei, mais na esperança do que na certeza de que algo fosse responder. Você está aí? Preciso de ajuda.

"Presente."

A voz não veio de fora. Veio de dentro — calma, sem pressa, sem um único traço da urgência que consumia cada célula do meu corpo naquele momento.

Quem... quem é você?, pensei, tentando ignorar as mãos que já me puxavam de volta para os joelhos. O que você é?

"Eu sou a Consciência Superior. Uma fração da consciência divina, concedida a você através da Bênção da Deusa, no momento em que sua vida esteve prestes a se apagar."

Isso quer dizer que eu morri?, pensei, enquanto outro golpe — um pontapé nas costas, dessa vez — me fazia cerrar os dentes pra não gritar.

"Não. Você foi salvo. A definição exata do processo excede o necessário neste momento."

Então me ajuda a sair daqui!, implorei, mentalmente, sentindo os dedos de um dos capangas se fecharem no meu cabelo, forçando minha cabeça pra trás.

"Analisando situação. Você está imobilizado, ferido, cercado por três hostis armados e um executor. Não há rota de fuga viável no estado atual. Recomendação: preservar consciência e aguardar."

Aguardar o quê?!, pensei, e a palavra saiu quase como um grito silencioso.

"Aguardar" foi tudo que ela respondeu. Direta. Sem nenhuma tentativa de suavizar o que aquilo significava.

O homem da cicatriz, vendo que eu não tinha nada além do óbvio pra dizer, por fim se ergueu e balançou a cabeça pro carrasco mascarado.

— Perda de tempo — disse. — Ele não sabe de nada. Comecem por ele mesmo assim. Serve de exemplo pros outros.

Fui arrastado pelos últimos metros até o cepo e forçado a ajoelhar diante dele, o rosto empurrado pra baixo até que minha bochecha ferida encostasse na madeira fria e áspera. Ouvi os passos pesados do carrasco se aproximando, o rangido do cabo do machado sendo erguido atrás de mim.

Fechei os olhos.

Foi então que o céu rugiu.

Não foi trovão. Era grave demais, próximo demais, seguido por um bater de asas tão forte que levantou poeira do chão e fez a paliçada inteira estremecer. Todos os capangas se viraram ao mesmo tempo — e por um instante, ninguém se lembrou de mim.

Uma sombra enorme cortou o céu cinzento. Escamas cinzentas, asas que pareciam cobrir metade do campo. A criatura desceu em voo rasante bem sobre a paliçada, tão baixo que a ponta de uma asa raspou o topo da cerca e a abriu ao meio como se fosse papel, derrubando estacas inteiras em chamas de atrito. Atrás da brecha fumegante, vi tochas se movendo em formação, o brilho de armaduras alinhadas, o estandarte de um exército avançando a passo firme, implacável.

— Exército! — alguém gritou lá atrás.

Dessa vez, não fui eu quem congelou de pânico.

Antes mesmo que o dragão tocasse o chão, algo caiu do lombo dele — um vulto comprido, enrolado em faixas de pano grosso, que atingiu a lama bem no centro do campo com um baque tão pesado que senti o tremor subir pelos meus joelhos ajoelhados. Um instante depois, uma segunda figura, bem menor, saltou atrás daquele vulto e pousou ao lado dele com uma leveza quase silenciosa.

Ela não tinha nada do que eu esperava de uma "cavaleira". Era baixinha — mal chegava ao ombro dos capangas ao redor —, o rosto redondo e delicado parecendo ainda mais deslocado ali do que o meu próprio uniforme escolar. O cabelo, num rosa claro que caía até os ombros, escapava por baixo de um elmo leve. A armadura que usava não era como a dos soldados atrás dela — mais próxima de algo grego, ou romano, talvez, peças curvas de metal claro cobrindo peito e ombros, deixando os braços livres.

Ela se aproximou do vulto enfaixado — nem sequer tocou o pano pra revelar o que havia por baixo — e debruçou os dois braços sobre ele, apoiando o peso daquela lâmina embrulhada contra o próprio ombro, como uma criança carregando um brinquedo grande demais para ela. Só então ergueu os olhos e encarou o campo.

O homem da cicatriz, que já tinha erguido a espada pra avançar, parou no meio do passo. O sangue sumiu do rosto dele num instante.

— Essa espada... — murmurou, a voz rouca. — Cavaleira Capitã Aria.

Um silêncio estranho se instalou entre os capangas que restavam.

— Kurogane Zenshirou — ela respondeu, baixo, quase um sussurro, mas que ainda assim cortou o ar como se todos ali devessem parar pra ouvir. — Há tempos.

— Olha só quem veio pessoalmente enfrentar um bando de mercadores de gente. Achei que a "flor do exército" só aparecia em batalhas grandes. Não imaginei que fosse perder seu tempo com um lugarzinho insignificante desses.

— Guarde seu cinismo para você! Um segundo cavaleiro prateado se destacou ao lado do imenso dragão que havia pousado. Havia uma aura estranha nele, como se várias vidas flutuassem ao seu redor.

A pequena cavaleira não respondeu de imediato. Só ergueu a espada imensa com um movimento que parecia impossível pro tamanho dos braços dela, apoiando a ponta na lama.

— Você fala demais — disse, num murmúrio tão baixo que mal chegou até onde eu estava ajoelhado.

— O quê? — Zenshirou inclinou a cabeça, franzindo a testa. — Não ouvi. Fala mais alto, "capitãzinha".

Ela repetiu a mesma frase, exatamente no mesmo tom baixo, sem se alterar nem um pouco.

Zenshirou olhou pros próprios capangas, e por um segundo — em meio a todo aquele terror — o rosto dele fez uma careta confusa tão exagerada que quase pareceu cômica, como se estivesse mais perdido tentando entender o que ela tinha dito do que preocupado com a espada gigante na mão dela.

— Sério que ela fala desse jeito? — resmungou um dos capangas, baixinho, pra ninguém em particular.

O sorriso de Zenshirou murchou de vez.

— Que se dane— rosnou, erguendo a espada de novo, a voz recuperando o desprezo de antes. — Vocês vão aprender, do jeito mais doloroso possível, que Kurogane Zenshirou não recua diante de ninguém.

Ele avançou, e os capangas que ainda estavam de pé o seguiram.

Aria não recuou um centímetro. Ergueu a espada imensa — ainda enrolada de ponta a ponta em suas faixas brancas — com as duas mãos, como se pesasse o mesmo que um graveto, e no instante em que cortou o ar, um risco de fogo brotou por baixo do próprio pano, abrindo um talho fumegante no chão molhado e arremessando dois capangas para trás antes mesmo que chegassem perto dela.

O corpo dela se movia diferente de tudo que eu já tinha visto — pequeno, rápido, quase brincalhão, como se aquela lâmina enorme fosse leve como uma pena em suas mãos. Desviou de um golpe se agachando, girou por baixo do braço de outro atacante e respondeu com um corte ascendente que arrancou faíscas e fogo ao mesmo tempo, derrubando mais um adversário na lama, enquanto Zenshirou se esquivava de todos os seus golpes.

O carrasco mascarado, ainda ao meu lado, hesitou entre erguer o machado contra mim ou se virar para os soldados que já invadiam o campo pela brecha aberta. Foi nesse instante que o outro cavaleiro se aproximou — um soldado, descido junto com o dragão, decerto — surgiu ao meu lado e cortou as cordas em volta dos meus pulsos com um único puxão rápido da adaga.
— Fica abaixado — disse o soldado, já se virando para encarar o carrasco que, enfim, levantava o machado.

Obedeci.

Me encolhi para trás, os pulsos ainda ardendo de dor, e só então consegui erguer os olhos o bastante para enxergar o resto do campo.

Do outro lado, entre a fumaça e o brilho alaranjado das brasas espalhadas pela grama queimada, Aria e Zenshirou ainda trocavam golpes em um ritmo absurdo, rápido demais para ser acompanhado com conforto. Ele não estava apenas se defendendo. A katana dele cortava o ar em ângulos precisos, como se antecipasse os movimentos da espada enfaixada dela um instante antes de cada ataque, aparando, desviando e respondendo com estocadas curtas que a obrigavam a recuar passo a passo.

— Achou mesmo que eu facilitaria as coisas? — ele rosnou, avançando com um golpe horizontal que ela evitou se abaixando quase até o chão.

Por um instante — só um — pareceu que ele tinha conseguido tomar a dianteira. A pressão dele a empurrava na direção da brecha aberta na paliçada.

Então Aria girou o corpo por baixo da lâmina.

Foi um movimento limpo e preciso — perigoso justamente por não carregar nenhum desperdício. A ponta da katana passou raspando pelo ombro de sua armadura, mas ela já havia escapado do alcance do golpe.

Quando se ergueu, sua expressão havia mudado.

A doçura que eu vira no início desaparecera por completo. Naquele instante, o rosto de Aria pertencia a um cavaleiro: sereno, firme e absolutamente decidido.

Ela ajustou a postura e ergueu a espada enfaixada.

A voz, porém, continuava tão calma quanto antes.

— Suspiro do Dragão!

A lâmina subiu em um arco violento.

Zenshirou reagiu no último instante. Sua katana se ergueu entre os dois, atravessada diante do peito.

Então as duas espadas se chocaram.

Um clarão alaranjado explodiu no meio da fumaça, seguido por um som agudo de metal sendo rasgado. Por um breve momento, não consegui enxergar nada além das faíscas que se espalharam pelo campo.

Por um segundo — talvez dois — ninguém se moveu.

Nem os capangas que ainda estavam de pé. Nem os soldados que avançavam pela brecha. Nem eu.

Tinha acabado?

Será que um golpe só, por mais forte que fosse, tinha sido suficiente para derrubar um homem que, instantes antes, acompanhava cada movimento dela como se já soubesse o que viria?

Eu não tive tempo de descobrir.

Foi nesse instante que o carrasco atacou.

O machado desceu em um arco pesado, cortando a fumaça e o ar ao mesmo tempo.

O soldado desviou para o lado no último instante. Seu corpo se inclinou apenas o necessário para escapar da lâmina, e então ele deslizou pela lama com um salto silencioso, quase felino. Os pés mal tocaram o chão antes de levá-lo para outro ponto do campo.

— Ninja... — murmurou um dos capangas, recuando.

O soldado não respondeu.

Em vez disso, ergueu a mão livre e fechou os dedos em uma sequência rápida de sinais.

O ar ao redor dele começou a vibrar.

Pequenas esferas luminosas surgiram uma após a outra, flutuando em diferentes alturas. Eram translúcidas, do tamanho de um punho, e brilhavam por dentro como se tivessem engolido pequenas chamas.

Por um instante, permaneceram perfeitamente redondas.

Então começaram a mudar.

Uma delas se achatou até virar um disco fino. Outra se alongou, formando uma lâmina curva. A terceira se abriu em quatro pontas, como uma estrela irregular, antes de voltar à forma original.

Não pareciam criaturas.

Pareciam fragmentos vivos de alguma força invisível, obedecendo apenas à vontade do soldado.

As esferas se espalharam pelo campo e cercaram o carrasco.

— Então é você... — disse o homem mascarado, acompanhando o movimento delas com o olhar. — O domador de shinkis do exército de [NOME DA CIDADE].

O soldado manteve a mão erguida.

— Meu nome é Kagerou — respondeu. — Cavaleiro da Ordem de [NOME DA CIDADE].

Ele baixou dois dedos.

— E estes são meus shinkis.

As esferas se moveram.

Uma delas se achatou no caminho do machado no instante em que o carrasco atacou novamente. A lâmina atingiu sua superfície e deslizou para o lado, como se tivesse encontrado uma placa inclinada. O golpe, que antes cairia diretamente sobre Kagerou, desviou-se por alguns centímetros e abriu uma vala na lama.

Kagerou avançou pela lateral da arma.

Sua adaga buscou o pulso do carrasco.

O carrasco então puxou o cabo do machado de volta e bloqueou o ataque.

O impacto produziu uma explosão de faíscas.

Kagerou não insistiu.

No mesmo instante, duas esferas se esticaram em arcos finos e se prenderam ao cabo da arma. Não tentaram segurá-lo. Apenas tocaram o metal em pontos diferentes, alterando o momento em que o machado completaria o giro.

A arma perdeu o ritmo.

Kagerou aproveitou a fração de segundo e recuou antes do contra-ataque.

— Um truque inconveniente — disse o carrasco.

— Você ainda não viu nada.

Kagerou fez outro sinal.

As esferas se dividiram em pares.

Uma delas se expandiu diante do soldado, formando uma placa curva que recebeu o golpe seguinte do machado. O impacto fez o espírito estremecer e se deformar, mas também desviou a lâmina para baixo.

A outra esfera girou ao redor do braço do carrasco e assumiu a forma de um aro luminoso. Quando Ibusuki tentou puxar a arma de volta, o aro se fechou sobre seu antebraço por um instante, atrasando o movimento.

Kagerou atacou.

A adaga avançou em direção ao espaço aberto entre a máscara e a proteção do pescoço.

O carrasco conseguiu recuar, mas a lâmina passou perto o bastante para cortar uma tira do couro.

— Hm.

A voz dele continuava abafada pela máscara, mas não havia irritação nela.

Havia interesse.

— Esses bichinhos não são nem um terço do que um domador de verdade consegue invocar.

Kagerou permaneceu em movimento, sempre circulando, enquanto as esferas se reorganizavam ao seu redor.

— Está com medo de mostrar o resto? — continuou o carrasco.

— Não.

Uma das esferas se transformou em um anel fino e passou diante da lâmina do machado. Outra se colocou atrás dela, em uma posição oposta.

Quando o golpe veio, as duas agiram juntas.

A primeira desviou a lâmina para a esquerda. A segunda tocou a parte traseira do machado e empurrou sua trajetória de volta para o centro.

O resultado foi uma mudança brusca no arco do ataque.

A arma passou rente ao rosto de Kagerou.

Ele sentiu o vento da lâmina tocar sua pele, mas não recuou. Girou o corpo e atacou enquanto ainda estava dentro da guarda do carrasco.

Dessa vez, sua adaga acertou.

A lâmina rasgou a máscara de couro na altura do olho esquerdo.

Um corte fino se abriu sob o material remendado, e o sangue começou a escorrer.

O carrasco parou.

As esferas também.

Por uma fração de segundo, o campo inteiro pareceu prender a respiração.

O homem levou a mão ao rosto.

A máscara havia se aberto o suficiente para revelar uma cicatriz antiga atravessando a órbita vazia de um olho que não existia mais. A pele ao redor estava marcada por queimaduras profundas, como se tivesse sido consumida pelo fogo e reconstruída à força.

— Isso... — murmurou ele.

Sua voz havia mudado.

Ficara mais baixa.

Mais pesada.

— Isso não devia ter acontecido.

Com um movimento brusco, ele arrancou o restante da máscara e a jogou na lama.

O rosto revelado era ainda pior do que eu imaginava. Cicatrizes grossas cruzavam sua pele de um lado ao outro, algumas antigas, outras tão profundas que pareciam ter sido fechadas às pressas.

O único olho restante brilhava com uma luz vermelha, fraca e pulsante.

— Meu nome é Garou Ibusuki — disse ele.

A mão apertou o cabo do machado e a arma começou a mudar.

O metal escureceu como se estivesse derretendo. Uma camada negra escorreu pela lâmina e pelo cabo, cobrindo-os antes de se solidificar em placas irregulares.

O machado cresceu diante dos meus olhos.

— Contemple... — ele sussurou.

Rachaduras vermelhas se abriram por toda a sua extensão, brilhando como brasas escondidas dentro do metal. Uma pressão sufocante se espalhou pelo campo, pesada o bastante para fazer minha respiração falhar.

As esferas de Kagerou recuaram.

Não por medo.

A força liberada pelo machado havia deformado o ar ao redor de Ibusuki. As menores oscilações de luz em seus corpos começaram a tremer, e algumas perderam a forma esférica antes de se reconstruírem.

Kagerou estreitou os olhos.

— Fortificação de segunda fase...

— Reconhece?

Ibusuki ergueu o machado.

— Então também reconhece o que vem agora.

A arma desceu.

Kagerou fez um sinal com a mão.

Três shinkis se achatam ao mesmo tempo e se uniram, formando uma única placa massissa de energia que se chocou com o centro da lâmina furiosa do machado.

A força do impacto foi absurda.

A energia brilhante de Kagerou se dissolveu no mesmo instante.

O chão rachou.

Kagerou foi lançado para trás e rolou pela lama, enquanto pedaços de pedra e terra voavam ao seu redor.

Os shinkis restantes se desfizeram em partículas luminosas.

Por um instante, achei que haviam sido destruídos.

Então os fragmentos começaram a se reunir.

Lentamente, voltaram a formar esferas, mas agora tremiam no ar, menores e menos brilhantes.

Kagerou se levantou com dificuldade.

— Droga...

Ele limpou o sangue que escorria do canto da boca e ergueu a adaga outra vez.

Ibusuki arrancou o machado do chão.

— Isso é tudo?

As esferas restantes se posicionaram ao redor de Kagerou.

Uma se transformou em um arco e se prendeu à lâmina da adaga, estendendo seu alcance por alguns centímetros. Duas outras se dividiram em anéis menores, girando ao redor dos braços do soldado como articulações adicionais.

Kagerou baixou o centro de gravidade.

— Ainda não.

Ele desapareceu do campo de visão por um instante.

Não foi velocidade.

Os shinkis haviam se deformado ao redor de seu corpo, comprimindo o ar em uma sucessão de reflexos luminosos. Por onde Kagerou passava, uma falsa silhueta permanecia durante alguns segundos, repetindo o início de seu movimento.

Ibusuki girou o machado.

Uma silhueta foi cortada.

Depois outra.

A terceira se desfez em partículas.

Kagerou surgiu pelo lado oposto.

A adaga avançou contra o rosto descoberto do carrasco.

Ibusuki se virou a tempo.

O machado interceptou o golpe, mas uma das esferas se achatou entre as duas armas. Em vez de tentar afetar a direção do, ela se achatou como uma faca brilhante em direção ao carrasco.

Ibusuki recuou a cabeça.

Aquela faca luminosa passou a um fio de distância de seu olho.

Pela primeira vez, o carrasco perdeu o sorriso.

Os dois se afastaram.
Ao redor deles, os shinkis não voltaram a assumir a forma esférica.

Permaneceram espalhados pelo campo, tremulando como fragmentos de luz presos ao ar. Alguns ainda carregavam a forma de discos, outros se estendiam em fios finos, e dois deles mantinham a aparência de lâminas transparentes, flutuando ao lado dos ombros de Kagerou.

Mas a formação já não era tão precisa quanto antes.

A cada golpe de Ibusuki, um shinki era forçado a se desfazer. A cada nova tentativa de reorganização, o machado fortificado destruía parte do espaço que eles precisavam ocupar.

Kagerou continuava desviando.

Porém, agora, não estava mais conduzindo a luta.

Estava apenas sobrevivendo a ela.

Ibusuki avançou com um golpe diagonal.

Kagerou inclinou o corpo, e a lâmina passou a poucos centímetros de seu rosto. Antes que pudesse contra-atacar, o carrasco girou o machado usando apenas uma das mãos.

O cabo atingiu seu abdômen.

Kagerou conseguiu cruzar um shinki entre os dois no último instante, mas a esfera foi esmagada pelo impacto. Mesmo assim, a força restante o lançou para trás.

Ele deslizou pela lama e parou de joelhos.

Um fio de sangue escorreu de sua boca.

Ibusuki ergueu o machado.

— Está ficando sem opções, cavaleiro.

Kagerou apoiou uma das mãos no chão e se levantou devagar.

Ao redor dele, os shinkis tremiam.

Não pareciam feridos. Pareciam exaustos.

Alguns mal conseguiam manter a forma, suas superfícies luminosas oscilando como chamas expostas ao vento.

Kagerou observou cada um deles por um instante.

Então fechou os olhos.

— É... — murmurou. — Vou precisar usar aquilo.

Ibusuki avançou.

Kagerou não recuou.

Em vez disso, levou a mão até a lateral da cintura e puxou uma segunda adaga da bainha escondida sob a capa.

As duas lâminas eram menores que uma espada comum, mas perfeitamente equilibradas. Uma permanecia em sua mão direita, apontada para baixo. A outra surgiu em sua mão esquerda, invertida, com o fio voltado para fora.

Ibusuki franziu o cenho.

— Duas adagas?

Kagerou ergueu os braços.

Os shinkis ao redor do campo começaram a se mover.

Dessa vez, não formaram uma barreira. Não criaram imagens. Não tentaram alterar a trajetória do machado.

Todos se afastaram de Ibusuki e se dirigiram para Kagerou.

Um após o outro, os espíritos abandonaram suas formas instáveis e foram absorvidos pelas duas adagas.

A luz se comprimiu.

As dezenas de shinkis se reduziram a duas esferas densas, uma sobre cada lâmina. Elas giravam em torno do metal como pequenos astros, deixando rastros luminosos no ar.

Kagerou apertou o cabo das armas.

— Shinkis.

As duas esferas mergulharam nas adagas.

— Incorporação Espiritual!

A energia explodiu.

Por um instante, não consegui mais enxergar as mãos de Kagerou. A luz cobriu seus braços, subiu pelos ombros e voltou a se concentrar nas lâminas.

O metal das adagas se alongou.

As pontas se curvaram levemente para trás, adquirindo uma forma semelhante à de pequenas foices. O fio ficou mais largo e irregular, e linhas luminosas percorreram o aço como veias vivas.

As armas não pareciam mais objetos empunhados por Kagerou.

Pareciam partes dos próprios braços dele.

A luz nas lâminas se apagou aos poucos, deixando apenas um brilho pálido ao longo dos fios.

Kagerou abriu os olhos.

A expressão dele havia mudado.

Até aquele momento, lutara como alguém tentando encontrar uma brecha.

Agora, parecia ter decidido criar uma à força.

— Venha — disse.

Ibusuki sorriu.

— Finalmente.

O carrasco avançou.

A primeira colisão foi tão violenta que o som se espalhou pelo campo inteiro.

O machado desceu na direção do ombro de Kagerou. Ele cruzou as duas adagas acima da cabeça, mas não tentou bloquear o golpe. As lâminas tocaram a arma fortificada e deslizaram por sua lateral, desviando-a para o lado enquanto Kagerou girava o corpo.

No mesmo movimento, sua adaga direita subiu em direção às costelas de Ibusuki.

O carrasco recuou o tronco.

A lâmina passou raspando pela armadura e deixou uma linha luminosa sobre o metal.

Ibusuki respondeu com o cabo do machado.

Kagerou abaixou a cabeça.

O golpe passou acima dele.

Ele avançou por dentro da guarda do carrasco, os dois corpos quase se chocando, e atacou com a adaga esquerda em um corte curto contra o braço que segurava a arma.

Ibusuki largou uma das mãos do cabo e agarrou o pulso de Kagerou.

Por um instante, pareceu que o havia capturado.

Kagerou torceu o próprio braço, soltando a mão da pressão, e deixou a adaga escorregar entre os dedos. A arma girou no ar.

Ele a pegou novamente pela ponta do cabo, agora com o fio voltado para trás, e desferiu um corte ascendente.

Ibusuki inclinou o corpo.

A lâmina passou diante de seu peito.

O carrasco tentou esmagá-lo com uma joelhada, mas Kagerou colocou o pé sobre o joelho dele e usou o próprio impulso do adversário para saltar por cima de seu ombro.

Enquanto passava, cortou.

Uma linha brilhante surgiu na parte de trás da armadura de Ibusuki.

O carrasco rugiu e girou o machado para trás sem sequer olhar.

Kagerou cruzou as lâminas atrás do corpo.

O machado bateu nas duas adagas e o impacto o lançou contra uma das estacas quebradas da paliçada.

A madeira se partiu às suas costas.

Ibusuki avançou para finalizar.

Kagerou se desprendeu da estaca no último instante, e a lâmina do machado destruiu o que restava dela. Ele rolou por baixo do braço do carrasco e se levantou já atacando.

Uma adaga veio de baixo.

A outra, de cima.

Ibusuki bloqueou a primeira com o cabo do machado, mas a segunda encontrou uma brecha entre as placas da armadura e cortou seu ombro.

Sangue escuro respingou na lama.

— Insolente!

A aura vermelha do machado se expandiu.

O ar pareceu explodir ao redor do carrasco.

Kagerou foi obrigado a recuar, mas Ibusuki não permitiu que recuperasse distância. Avançou golpe após golpe, cada movimento do machado abrindo crateras no chão.

Kagerou se movia entre os ataques.

Um passo para a esquerda.

Uma inclinação do corpo.

Um giro sobre o calcanhar.

As adagas de shinki não paravam de trabalhar. Uma desviava a lâmina por alguns centímetros; a outra atacava a abertura criada. Quando Ibusuki mudava a postura, Kagerou mudava junto, mantendo-se sempre no ponto cego entre o cabo e a lâmina.

Era como assistir a duas tempestades se chocando.

O machado desceu.

Kagerou cruzou as adagas e aparou o golpe de lado. O impacto fez seus joelhos dobrarem, mas ele usou a própria pressão da arma para girar ao redor dela.

A adaga direita abriu um corte no antebraço de Ibusuki.

A esquerda atingiu sua lateral.

O carrasco urrou e golpeou com o cotovelo.

Kagerou não conseguiu escapar por completo.

O impacto acertou seu rosto e o fez cambalear.

Ibusuki aproveitou.

A lâmina fortificada veio na horizontal, rápida demais para ser bloqueada.

Kagerou se jogou no chão.

O machado passou acima dele e cortou uma faixa inteira da paliçada.

Kagerou rolou entre as pernas do carrasco, levantou-se atrás dele e cravou as duas adagas em um movimento cruzado.

As lâminas pararam a poucos centímetros das costas de Ibusuki.

O carrasco havia se virado no último instante.

Com uma das mãos, segurava os pulsos de Kagerou.

Com a outra, mantinha o machado encostado contra a garganta dele.

Os dois ficaram imóveis.

A respiração de Kagerou estava pesada.

O olho vermelho de Ibusuki brilhava diante dele.

— Peguei você.

Kagerou sorriu.

— Não.

As linhas luminosas nas duas adagas pulsaram.

Ibusuki olhou para baixo.

As lâminas não haviam atravessado sua armadura, mas a energia dos shinkis havia se espalhado pelo metal, formando dois fios de luz que agora envolviam seu braço e seu pescoço.

Kagerou puxou os pulsos para lados opostos.

Os fios se fecharam.

Ibusuki foi obrigado a soltar o machado para não perder o equilíbrio.

Kagerou girou o corpo e acertou uma joelhada em seu estômago. Em seguida, libertou as mãos, cruzou as duas adagas diante do peito do carrasco e desferiu um corte simultâneo.

Ibusuki recuou.

A armadura se abriu em duas marcas profundas.

Ele ainda estava de pé, mas o sorriso havia desaparecido.

Kagerou também não saiu ileso.

Sangue escorria de sua testa, e um de seus braços tremia pelo esforço. As duas adagas continuavam brilhando, mas a luz já não era tão intensa.

Mesmo assim, ele assumiu novamente a postura de combate.

Ibusuki levantou o machado.

Kagerou fez o mesmo com as duas lâminas.

Os dois avançaram ao mesmo tempo.

E, por um momento, deixei de conseguir distinguir onde terminava um golpe e começava o outro.

 A fumaça do choque entre a espada de Aria e a katana de Zenshirou ainda não havia se dissipado por completo quando um som quebrou o silêncio.

Uma risada baixa. Rouca.

Vinha de dentro da fumaça.

Aria recuou um passo e ergueu a espada diante do corpo.

A silhueta de Zenshirou se recortou lentamente contra a névoa. Ele estava de pé. A katana pendia da mão direita — mas a lâmina havia se partido pela metade, o restante do aço fumegando no chão, cortado pelo próprio golpe que deveria tê-lo derrubado.

— Suspiro do Dragão — ele repetiu, quase saboreando as palavras. — Nada mal, cavaleira.

Ele abriu os dedos.

O que restava da katana caiu na lama.

— Mas eu não uso espada há muito tempo. Só carrego uma para... manter as aparências.

Zenshirou ergueu as duas mãos vazias.

Por um instante, nada aconteceu.

Então, sob a pele de seus dedos, algo se moveu.

Linhas escuras subiram por seus braços como raízes se espalhando sob a terra. As pontas dos dedos racharam, e de dentro delas surgiram garras negras, longas e curvas, brilhando com um verniz oleoso que não refletia a luz.

— Garras do Retaliador.

A energia negra se expandiu ao redor de suas mãos.

Aria não recuou, mas seus olhos se estreitaram.

— Isso era a arma verdadeira o tempo todo.

Ele desapareceu.

As garras cortavam o ar em sequências cada vez mais rápidas. Não havia um padrão fixo. Um golpe começava na direção do ombro e mudava para o pescoço; outro parecia mirar o peito, mas se desviava para a perna no último instante.

Aria aparava o que conseguia.

O restante, evitava.

Mas Zenshirou não precisava acertá-la em cheio.

Bastava tocar.

Uma das garras raspou o tecido que cobria seu braço.

Aria recuou imediatamente.

Por baixo da manga rasgada, uma marca negra se espalhou pela pele. Era fina, como uma veia escura, mas pulsava em direção ao ombro.

Ela olhou para o próprio braço.

Zenshirou sorriu.

— Percebeu?

Aria não respondeu.

Ele avançou outra vez.

A espada enfaixada interceptou as garras, mas o choque fez o braço dela estremecer. Zenshirou torceu o pulso e deslizou as lâminas negras pela lateral da espada, tentando alcançar sua mão.

Aria soltou a arma com uma das mãos e girou o corpo.

O golpe passou diante de seu rosto.

Ela contra-atacou com o cotovelo, atingindo o queixo de Zenshirou, e depois chutou seu joelho. Ele cambaleou, mas não caiu.

As garras se fecharam.

A energia negra em suas mãos se expandiu ainda mais. As lâminas cresceram alguns centímetros e adquiriram uma aparência ainda mais afiada, cobertas por finas linhas escuras que se moviam como líquido.

— Cada corte deixa um pouco do meu veneno dentro do corpo — explicou Zenshirou. — Quanto mais você bloqueia, mais ele se espalha.

Aria reassumiu a postura.

O braço marcado tremia.

— Veneno?

— Algo parecido.

Zenshirou desapareceu.

Aria ergueu a espada.

A primeira garra chocou-se contra a lâmina.

A segunda passou por baixo e tocou sua cintura.

Aria prendeu a respiração.

A marca negra se espalhou pela lateral do corpo.

Ela respondeu com um golpe diagonal, mas Zenshirou se afastou antes que a espada alcançasse seu peito. Em seguida, avançou novamente, sem lhe dar tempo para recuperar o equilíbrio.

As garras vieram de todos os lados.

Aria desviou de uma.

Aparou outra.

A terceira atingiu sua armadura e deixou um risco profundo no metal.

Ela tentou recuar, mas a perna esquerda falhou por um instante.

Foi apenas uma fração de segundo.

Ainda assim, Zenshirou percebeu.

Ele girou o corpo e desferiu um golpe direto contra seu ombro.

Aria cruzou a espada diante de si.

A garra bateu na lâmina e escorregou até tocar seus dedos.

A mão dela perdeu força.

A espada quase caiu.

Aria recuou com um salto e segurou a arma novamente com as duas mãos, mas agora sua respiração estava mais pesada. O braço e a lateral do corpo estavam cobertos por linhas negras que avançavam lentamente.

Zenshirou caminhou em sua direção.

— Não precisa se preocupar — disse ele. — Ainda consigo deixar você se mexer por mais algum tempo.

Aria levantou os olhos.

A calma em seu rosto havia desaparecido.

Não havia medo ali.

Havia determinação.

Ela girou a espada e assumiu uma postura mais baixa, apesar do corpo cada vez mais rígido.

— Então vou acabar com você antes disso.

Zenshirou abriu um sorriso.

Os dois avançaram novamente.

As garras e a espada se chocaram, produzindo uma sequência de sons metálicos que se confundiu com os estrondos da batalha entre Kagerou e Ibusuki.

De um lado, o machado fortificado destruía a terra enquanto as duas adagas de shinki perseguiam cada abertura.

Do outro, Aria lutava contra um inimigo que só precisava de um toque para transformar seus próprios movimentos em uma prisão.

E eu continuava ajoelhado na lama.

Os pulsos estavam livres.

Mas eu não tinha espada.

Não tinha poder.

Não sabia quem eram aquelas pessoas, por que estavam lutando ou o que exatamente estava acontecendo ao meu redor.

Ainda assim, eu já havia entendido uma coisa.

Se continuasse parado, alguém morreria.

Eu precisava fazer alguma coisa.

Só havia um problema.

Eu não fazia ideia do quê.
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