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Capítulo 1

O Dia em Que Tudo Mudou

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1.824 palavras 30 de julho de 2026
O calor suave do sol repousava sobre minha pele como um cobertor aquecido pelo início da manhã.

Ergui o olhar quase por instinto e acompanhei um pequeno bando de pássaros atravessar o céu em formação, as asas batendo num ritmo constante até desaparecerem atrás das copas das árvores que cercavam o pátio da escola. Uma brisa fresca soprou logo em seguida, fazendo as folhas farfalharem em meio às conversas espalhadas pelo campus. Ao longe, alguém ria alto. Em outro canto, um grupo discutia sobre alguma prova. O som de uma bola quicando na quadra chegava abafado, acompanhado do apito do professor de educação física.

Era apenas mais uma manhã de verão. Nada parecia fora do lugar. E talvez fosse justamente isso que a tornasse especial.

Sempre achei curioso como momentos tão comuns conseguiam transmitir uma paz difícil de explicar — o céu limpo, o cheiro da grama recém-aparada, pequenas coisas que passavam despercebidas pela maioria das pessoas. Mas não por mim. Se estivesse sozinho, provavelmente teria parado ali por alguns minutos, só para respirar fundo e esquecer o resto do mundo. Por alguns instantes, as preocupações com o futuro, as notas da escola, as dúvidas sobre a vida — tudo parecia distante quando eu permitia que aquele silêncio confortável me envolvesse.

Hoje não era um desses dias.

Meu coração batia rápido demais, cada pulsação ecoando no peito como alguém batendo numa porta por dentro. Minhas mãos estavam frias e úmidas; eu as escondia atrás do corpo, torcendo para que ninguém percebesse o tremor. Respirei fundo duas vezes. Não adiantou. A ansiedade só voltava mais forte.

Meus olhos permaneciam fixos na garota parada alguns metros à minha frente. Ela conversava com uma amiga, a alça da mochila presa ao ombro, o vento espalhando fios de cabelo pelo rosto que ela afastava com um gesto tão natural que, por algum motivo idiota, prendia toda a minha atenção. Quantas vezes eu já tinha visto aquela cena? Centenas. Talvez milhares. Mesmo assim, nunca me cansava.

Passei meses ensaiando esse momento — na frente do espelho, no banho, antes de dormir, no meio das aulas — sempre imaginando dezenas de finais diferentes. Em um, ela sorria. Em outro, recusava com educação. Em nenhum deles eu conseguia, de fato, terminar a frase. Era engraçado como a mente consegue criar centenas de cenários para algo que dura menos de um minuto, e nenhum deles parece suficiente quando esse minuto finalmente chega.

Engoli em seco. A garganta estava seca. Passei a língua pelos lábios, inutilmente.

— Calma — murmurei para mim mesmo, tão baixo que nem eu ouvi direito.

Era só dizer quatro palavras. "Eu gosto de você." Tão simples que chegava a ser ridículo. Então por que parecia a coisa mais difícil que eu já tinha feito na vida? Se me pedissem para fazer uma prova inteira sem estudar, eu aceitaria sem pensar duas vezes. Mas confessar um sentimento para uma única pessoa parecia impossível.

Fechei os olhos por um instante. Chega de fugir. Se eu desistisse agora, não teria uma segunda chance.

Respirei fundo mais uma vez, o ar entrando e saindo devagar, e quando abri os olhos de novo minhas pernas já não pareciam tão pesadas. Ela continuava ali, sorrindo, completamente alheia ao caos dentro de mim. Era estranho pensar que, enquanto meu mundo parecia prestes a virar de cabeça para baixo, o dela seguia exatamente igual. Para ela, talvez fosse só mais um dia comum. Para mim, seria o dia que eu lembraria pelo resto da vida — ou pelo menos era o que eu queria acreditar.

Dei um passo à frente. Depois outro. A distância entre nós diminuía, e cada passo exigia um esforço que meu cérebro insistia em considerar absurdo. As vozes ao redor começaram a sumir — ou talvez eu tivesse simplesmente parado de ouvi-las. Restavam só meus próprios batimentos.

A amiga dela se despediu com um gesto e caminhou em direção ao prédio principal. Agora ela estava sozinha.

Essa era minha chance.

— Takamori.

Minha voz saiu mais baixa do que eu queria, mas ela ouviu. Virou-se devagar, e por um instante o resto da escola sumiu da minha atenção.

— Sim? — ela perguntou, a cabeça levemente inclinada.

Não havia mais como voltar atrás.

— Eu go...

Foi nesse instante que tive a estranha impressão de ter piscado. Mas eu não tinha piscado. Minha visão simplesmente falhou — não escureceu, não ficou branca. Foi como se o mundo inteiro tivesse deixado de existir por uma fração de segundo.

Então ela voltou. Completamente diferente.

— ...sto de vo...

As palavras morreram na minha garganta. Minha voz ecoou num vazio que não deveria existir. A escola havia desaparecido.

— O quê...?

Meu corpo congelou. À minha frente estendia-se um campo imenso de grama verde ondulando sob a brisa, salpicado de flores coloridas espalhadas como estrelas num céu de verão. Não havia prédios. Não havia alunos. Não havia nada que eu reconhecesse.

— Takamori?

Girei o olhar pelos arredores. Ela não estava ali. Ninguém estava. Esfreguei os olhos com força, uma vez, duas, três — e quando voltei a olhar, a paisagem continuava exatamente igual.

— Que lugar é esse...?

O vento passou por mim, fazendo a grama ondular até se perder de vista. Um arrepio percorreu minha espinha. Isso não fazia sentido. Não podia fazer sentido. Um segundo atrás eu estava diante da garota para quem tinha esperado meses para confessar meus sentimentos. Agora ela tinha simplesmente desaparecido — junto com a escola, junto com a cidade, junto com o mundo inteiro. Só restava aquele silêncio estranho, cortado pelo vento cruzando a planície.

Uma única certeza começou a tomar conta de mim: eu já não estava mais onde deveria estar.

— Takamori!

Minha voz rasgou o silêncio, percorreu a planície, perdeu força e desapareceu. Nenhuma resposta. Apenas o vento.

Gritei de novo, mais alto, quase desesperado. Nada. Olhei em todas as direções — a escola, os prédios, as árvores, a cerca, as ruas — tudo tinha sumido.

Levei as mãos à cabeça e fechei os olhos com força. Respira. Conta até dez. Quando abrir os olhos, tudo estará normal. Contei. Abri os olhos. A mesma planície. O mesmo céu. O mesmo vento.

Meu estômago afundou. Não era sonho. Também não parecia delírio. Ajoelhei-me na grama e toquei o chão — quente, úmido. Arranquei um punhado de terra e apertei entre os dedos. O cheiro subiu na hora: terra, grama, vida. Tudo assustadoramente real.

— O que aconteceu comigo...?

Nenhuma resposta veio. Pela primeira vez desde que tudo começou, senti medo de verdade.

Comecei a andar, sem direção no início, depois escolhendo um ponto qualquer no horizonte. Nenhum lugar podia ser infinito. Mais cedo ou mais tarde eu encontraria alguma coisa — uma estrada, uma casa, uma pessoa, qualquer coisa.

O sol atravessou o céu devagar. Quando finalmente começou a se pôr, parei — e foi só então que percebi o que realmente me incomodava. Não era só a ausência de prédios ou de gente. O vento continuava soprando, mas não havia um único pássaro cortando o céu. Nenhum inseto zumbindo perto da grama. Nenhum som distante de bicho vivo. Era como andar por um mundo que nunca tinha aprendido a fazer barulho, e essa ausência incomodava mais do que qualquer criatura monstruosa poderia incomodar.

Dormi sobre a grama naquela noite — ou tentei. Toda vez que fechava os olhos, imaginava que acordaria de volta no pátio, ao lado da Takamori. No dia seguinte, nada tinha mudado. Continuei andando.

O segundo dia foi pior. A fome chegou primeiro. A sede veio logo depois, secando minha garganta e rachando meus lábios aos poucos. Passei boa parte do tempo fitando o horizonte, sempre convencido de que aquela pequena elevação distante escondia alguma coisa, sempre me decepcionando quando chegava até ela e encontrava só mais terreno iluminado pelo sol. Então outra elevação surgia. E mais outra. Como se o mundo inteiro debochasse de mim.

Tentei arranjar explicações — outra dimensão, um experimento, algum tipo de sequestro. Até as histórias absurdas sobre as Backrooms voltaram à minha cabeça. Mas, conforme o tempo passava, essas perguntas foram perdendo importância. Minha preocupação já não era entender onde eu estava. Era continuar andando.

No terceiro dia, parei de chamar pelo nome dela. Parei de chamar por qualquer nome. Minha voz tinha ficado rouca demais para isso, e a única coisa que eu ainda escutava era o vento — sempre o vento. Às vezes tinha a impressão de ouvir passos atrás de mim; parava na hora, e o silêncio voltava. Outras vezes jurava enxergar alguma construção ao longe, corria até lá e encontrava apenas mais um pedaço de terreno vazio.

Comecei a duvidar da própria visão. Do próprio juízo. Talvez estivesse delirando. Talvez nunca tivesse saído da escola, e meu corpo estivesse caído em algum lugar enquanto minha mente inventava tudo aquilo. Eu já não sabia. E, aos poucos, também deixei de me importar. Continuei andando porque parar significava aceitar que morreria ali.

Foi só quando minhas pernas finalmente deixaram de responder que percebi uma linha cruzando a planície — uma estrada de terra, estreita, quase escondida entre a vegetação. Parei diante dela por vários segundos. Uma estrada significava alguma coisa. Alguém precisou construí-la. Alguém já tinha passado por ali. Essa ideia simples devolveu um pouco das forças que eu achava ter perdido.

Segui por ela. Não sei por quanto tempo. O sol nasceu de novo, depois começou a descer outra vez, e meu corpo já não respondia direito.

Foi então que vi — muito longe, no limite entre a terra e o céu, uma pequena silhueta. Imóvel. Quase imperceptível. Meu coração acelerou pela primeira vez em dias. Forcei a vista. A figura sumiu. Pisquei. Ela voltou. Sumiu de novo. Não consegui dizer se era uma pessoa, uma árvore, ou só mais uma ilusão criada pelo cansaço.

Tentei continuar andando. Meu corpo recusou. As pernas cederam de uma vez, e caí — primeiro de joelhos, depois de lado. O cheiro da grama invadiu meus sentidos enquanto a visão escurecia devagar.

Será que a minha vida vai terminar assim?
[SISTEMA]
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Consciência perdida.
Sinais vitais abaixo do limite.
Risco real confirmado.
...
Autorização excepcional concedida.
Concedendo habilidade:
《Consciência Superior》
...
《Bênção da Deusa》
Ativada.
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