A tensão no campo de batalha crescia exponencialmente enquanto eu apenas observava tudo de perto. No meio do caos que se instalara, alguns soldados retiravam os reféns da zona de conflito. Parecia que tudo estava sob controle, a não ser pelo líder dos mercenários, chamado Zenshirou, e o aterrorizante carrasco, Ibusuki. Ambos estavam num nível completamente diferente, a ponto de causar problemas até para a capitã do exército.
— Não posso mais ficar parado. Deve haver algo que eu possa fazer para ajudar... qualquer coisa.
— Você ainda pode escolher uma classe.
Levei um susto. Aquela era a voz da Consciência Superior, minha habilidade — mas ela nunca tinha falado assim antes, do nada, sem que eu a chamasse primeiro. Sempre fora eu quem precisava buscá-la, formular a pergunta, quase implorar por uma resposta. Agora ali estava ela, se metendo na conversa por conta própria, como se tivesse estado ali o tempo todo, apenas esperando o momento certo.
Espera... você pode fazer isso? Falar sozinha, sem que eu peça?, pensei, ainda tentando processar. Então isso quer dizer que você poderia ter feito isso antes? Esse tempo todo?
O silêncio que se seguiu durou só um instante, mas foi o suficiente. Soou revelador, quase constrangido, como se ela tivesse sido pega no flagra e agora escolhesse cuidadosamente as próximas palavras.
— A classe é a base para qualquer pessoa — ela disse por fim, desviando do assunto sem nem tentar disfarçar. — É através dela que você descobrirá suas habilidades.
— Espera, mas por que eu tenho você, então? Quer dizer, por que tenho uma habilidade sem antes ter uma classe? — indaguei, curioso, ignorando por ora a fuga dela.
— Existem métodos diferentes de se conseguir uma habilidade, mas o principal e mais comum é por meio da classe. Ela é o norte de toda a sua jornada.
Foi então que um rugido cortou o ar às minhas costas. Não tive tempo nem de me virar direito antes de ver, pelo canto do olho, o machado de Ibusuki subir acima da cabeça dele num movimento brutal, a lâmina larga refletindo a luz cinzenta do céu nublado. Kagerou tentou bloquear, os pés escorregando na terra solta com a força do impacto, mas só conseguiu desviar o golpe por poucos centímetros — o suficiente para que a lâmina não me atingisse, mas não o bastante para impedir que ela rasgasse o chão bem atrás de mim.
O impacto foi ensurdecedor. A terra se abriu com um estrondo seco, cuspindo pedaços de pedra e uma nuvem espessa de poeira para cima, e a onda de choque me empurrou para frente, quase me derrubando de joelhos. Por um segundo, tudo o que consegui ouvir foi um zunido agudo, como se meus ouvidos tivessem sido tampados à força.
— Aaah, o que é isso?!
— Não fique aí parado, garoto! — berrou Kagerou, sem desviar os olhos de Ibusuki por um instante sequer, empurrando o cabo do machado do carrasco para trás com um rangido de metal contra metal. — Esse cara não erra duas vezes! Saia já daqui!
— C-certo... Então eu quero escolher minha habilidade. O que devo fazer? — perguntei à Consciência Superior.
— Nesse caso, basta se concentrar. Sua mente naturalmente fará as coisas acontecerem. Apenas tente.
Fechei os olhos e mentalizei meu status. Espera, existe um campo de classes ou algo assim...?
Escolher classe.
Foi então que três informações surgiram em minha mente — não eram visuais, nem textuais, mas dados implantados direto na consciência.
Tecelão. Essa classe permite enxergar a verdadeira forma da mana e controlá-la.
Isso parece bom...
A segunda opção era Executor. Descrição: quanto mais apanha, mais forte fica.
Isso não está certo. Que droga de classe é essa? Isso é coisa de masoquista.
A última opção era Cartógrafo — mas essa não parecia uma classe de batalha. Permitia conhecer os lugares como ninguém.
— Certo, já sei qual vou escolher. Eu quero ser Tecelão!
— Não posso mais ficar parado. Deve haver algo que eu possa fazer para ajudar... qualquer coisa.
— Você ainda pode escolher uma classe.
Levei um susto. Aquela era a voz da Consciência Superior, minha habilidade — mas ela nunca tinha falado assim antes, do nada, sem que eu a chamasse primeiro. Sempre fora eu quem precisava buscá-la, formular a pergunta, quase implorar por uma resposta. Agora ali estava ela, se metendo na conversa por conta própria, como se tivesse estado ali o tempo todo, apenas esperando o momento certo.
Espera... você pode fazer isso? Falar sozinha, sem que eu peça?, pensei, ainda tentando processar. Então isso quer dizer que você poderia ter feito isso antes? Esse tempo todo?
O silêncio que se seguiu durou só um instante, mas foi o suficiente. Soou revelador, quase constrangido, como se ela tivesse sido pega no flagra e agora escolhesse cuidadosamente as próximas palavras.
— A classe é a base para qualquer pessoa — ela disse por fim, desviando do assunto sem nem tentar disfarçar. — É através dela que você descobrirá suas habilidades.
— Espera, mas por que eu tenho você, então? Quer dizer, por que tenho uma habilidade sem antes ter uma classe? — indaguei, curioso, ignorando por ora a fuga dela.
— Existem métodos diferentes de se conseguir uma habilidade, mas o principal e mais comum é por meio da classe. Ela é o norte de toda a sua jornada.
Foi então que um rugido cortou o ar às minhas costas. Não tive tempo nem de me virar direito antes de ver, pelo canto do olho, o machado de Ibusuki subir acima da cabeça dele num movimento brutal, a lâmina larga refletindo a luz cinzenta do céu nublado. Kagerou tentou bloquear, os pés escorregando na terra solta com a força do impacto, mas só conseguiu desviar o golpe por poucos centímetros — o suficiente para que a lâmina não me atingisse, mas não o bastante para impedir que ela rasgasse o chão bem atrás de mim.
O impacto foi ensurdecedor. A terra se abriu com um estrondo seco, cuspindo pedaços de pedra e uma nuvem espessa de poeira para cima, e a onda de choque me empurrou para frente, quase me derrubando de joelhos. Por um segundo, tudo o que consegui ouvir foi um zunido agudo, como se meus ouvidos tivessem sido tampados à força.
— Aaah, o que é isso?!
— Não fique aí parado, garoto! — berrou Kagerou, sem desviar os olhos de Ibusuki por um instante sequer, empurrando o cabo do machado do carrasco para trás com um rangido de metal contra metal. — Esse cara não erra duas vezes! Saia já daqui!
— C-certo... Então eu quero escolher minha habilidade. O que devo fazer? — perguntei à Consciência Superior.
— Nesse caso, basta se concentrar. Sua mente naturalmente fará as coisas acontecerem. Apenas tente.
Fechei os olhos e mentalizei meu status. Espera, existe um campo de classes ou algo assim...?
Escolher classe.
Foi então que três informações surgiram em minha mente — não eram visuais, nem textuais, mas dados implantados direto na consciência.
Tecelão. Essa classe permite enxergar a verdadeira forma da mana e controlá-la.
Isso parece bom...
A segunda opção era Executor. Descrição: quanto mais apanha, mais forte fica.
Isso não está certo. Que droga de classe é essa? Isso é coisa de masoquista.
A última opção era Cartógrafo — mas essa não parecia uma classe de batalha. Permitia conhecer os lugares como ninguém.
— Certo, já sei qual vou escolher. Eu quero ser Tecelão!
[SISTEMA]
────────────────────────────────
Classe despertada:
《Tecelão》
...
Habilidades desbloqueadas:
《Olho Arcano》
《Tessitura》
────────────────────────────────
Classe despertada:
《Tecelão》
...
Habilidades desbloqueadas:
《Olho Arcano》
《Tessitura》
────────────────────────────────
"Olho Arcano"! — pensei, com toda a força da minha mente — e foi como se pudesse enxergar as partículas de mana. Não eram muitas e nem em todos os lugares, é como se fosse possível ver em momentos específicos. Talvez quando as pessoas estão manipulando ela seja possível ver a mana se formando junto, se parecem com tecidos que se tornam habilidades. Pelo menos parece ser assim ao redor do machado.
"Lista de habilidades". Espera, ainda tem mais habilidades que posso usar? Mas como desbloqueio elas?
— Você pode desbloquear novas habilidades ao conseguir pontos. Eles são ganhos ao subir de nível ou despertar — como você acabou de fazer, aliás. Você ainda tem 3 pontos de habilidade guardados.
— Entendi... Valeu, Consciência Superior!
— De nada. Deseja alocar os pontos restantes agora?
Congelei por um segundo.
— Posso fazer isso... assim, no meio de uma batalha?
— Tecnicamente, sim. Mas, se me permite uma opinião, seria imprudente. Prefiro que você entenda bem as duas habilidades que já tem antes de complicar ainda mais as coisas. Pontos não utilizados não expiram — não há pressa.
— Certo, isso... faz sentido. Vamos com calma primeiro, então.
Outro estrondo sacudiu o chão, mais perto dessa vez. Uma nuvem de terra e lama subiu bem onde Kagerou tinha estado um segundo antes, e ele só escapou porque se jogou de lado no último instante, rolando pela lama antes de se levantar já com as duas adagas erguidas.
— Certo, "Olho Arcano" — chamei de novo, tentando manter o foco apesar do coração disparado. — Como eu uso isso direito? Só... penso nele e pronto?
— A habilidade já está ativa desde o momento em que foi desbloqueada. Você não precisa "usá-la" continuamente — ela funciona como uma extensão da sua percepção. O esforço necessário está em interpretar o que você vê, não em enxergar.
— Interpretar? Tipo... eu já estou vendo tudo isso, mas não sei o que significa?
— Exatamente. Essa costuma ser a parte mais frustrante.
— Ah, ótimo. Perfeito. Vejo tudo e não entendo nada. Muito útil.
— Isso foi sarcasmo — ela observou, num tom que quase soou como diversão contida. — Registrado. Vamos continuar.
Tentei focar melhor, olhando ao redor do machado de Ibusuki como tinha feito sem querer minutos antes. Dessa vez, prestando atenção de verdade, consegui notar filamentos vermelho-escuros se enroscando pelo cabo e pela lâmina, como veias grossas alimentando aquele brilho de brasa que cobria o metal inteiro.
— Tá... eu tô vendo uns... fios? Tipo cordas vermelhas grudadas na arma dele.
— Correto. Esses fios representam a estrutura de mana que sustenta a fortificação da arma. Quanto mais densos e organizados, mais estável é o efeito.
— E eu posso fazer alguma coisa com isso?
— Claro! Com os olhos arcanos você passa a enxergar a mana e com a sua habilidade recém desbloqueada de Tessitura, você pode controlar a mana.
Olhei para as próprias mãos, sentindo um formigamento estranho nas pontas dos dedos.
— Certo. "Tessitura."
Nada aconteceu.
— ...Sério?
— Tessitura não é uma habilidade de ativação instantânea. Ela permite manipular fios de mana previamente identificados pelo Olho Arcano. Sem um alvo definido e sem compreensão da estrutura observada, não há o que tecer.
— Então eu preciso tipo... escolher um fio específico? Não posso só falar "Tessitura" e esperar alguma coisa épica acontecer?
— Não. Gostaria que fosse tão simples quanto isso, mas não é.
— Tá bom, entendido. Sem coisa épica ainda.
Fixei os olhos de novo nos filamentos vermelhos ao redor do machado, tentando escolher um único fio entre aquela trama toda, como a Consciência Superior tinha sugerido. Mas assim que tentei puxar mentalmente, senti como se estivesse tentando arrancar um fio solto de um tecido grosso demais — a sensação vinha, mas não cedia nem um milímetro.
— Não tá funcionando. Os fios são grossos demais, ou sei lá.
— Análise confirmada. A estrutura de mana em torno da arma de Ibusuki está altamente concentrada, resultado de uma habilidade muito poderosa. Fios dessa densidade exigem controle avançado de Tessitura, incompatível com seu nível atual de compreensão.
— Perfeito. Então essa habilidade é praticamente decorativa até segunda ordem.
— Recomendo buscar um alvo com menor densidade de mana para praticar.
Foi só então que percebi — enquanto Kagerou continuava se esquivando por pouco de cada golpe do machado enegrecido — que perto do ombro esquerdo de Ibusuki, bem onde a adaga de Kagerou tinha cortado minutos atrás, aqueles fios vermelhos ficavam visivelmente mais finos. Quase esgarçados, como um tecido puído.
— Espera. Ali no ombro dele os fios tão... diferentes. Mais fracos.
— Confirmado. Concentração de mana reduzida na região do ombro esquerdo, coincidindo com o dano físico recebido anteriormente. Provável ponto de instabilidade na fortificação.
— Isso quer dizer que eu consigo puxar esse aí? O fio fraco?
— Possivelmente. A densidade reduzida está mais próxima da sua capacidade atual.
Não tive tempo de testar com calma. Um novo golpe do machado açoitou o ar tão perto de Kagerou que ele foi jogado para trás, escorregando pela lama, um dos braços cedendo por um instante antes de conseguir se firmar de novo.
— Não tenho tempo pra testar nada com cuidado, não é?
— Não parece que sim. Improvise.
— Ótimo. Adorei essa resposta motivacional.
Respirei fundo, ignorando o gosto de sangue ainda preso na boca, e gritei o mais alto que consegui:
— KAGEROU! O OMBRO ESQUERDO! A MANA DELE ESTÁ FRACA NO OMBRO ESQUERDO!
Por um instante, achei que ele nem tinha ouvido — estava ocupado demais desviando de um corte horizontal que quase levou a cabeça dele junto. Mas, no segundo seguinte, vi os olhos dele se estreitarem, calculando.
— Garoto de roupas esquisitas com boa mira, hm? — riu Ibusuki, sem desviar o olhar de Kagerou. — Não importa quantas fraquezas vocês encontrem. Fraquezas não servem de nada pra quem não tem forças pra explorá-las.
— Vamos ver — respondeu Kagerou, a voz rouca, mas firme.
As duas adagas de shinki se ergueram outra vez, o brilho pálido pulsando ao longo do fio.
Ibusuki avançou primeiro, o machado descendo em um golpe vertical pesado o bastante pra rachar pedra. Kagerou não tentou bloquear de frente — jamais teria força pra isso. Em vez disso, deslizou pela lateral, as duas lâminas cruzadas guiando o peso da arma para o chão, como já tinha feito dezenas de vezes antes.
Só que dessa vez, no instante em que passou ao lado do carrasco, girou o corpo com tudo o que lhe restava e cravou a adaga direita exatamente no ombro esquerdo.
— Isso, isso, ISSO! — gritei, sem conseguir me conter.
Os fios vermelhos que eu via ao redor da armadura dele se romperam num ponto, como um tecido cedendo depois de puxado tempo demais. A luz vermelha nas rachaduras da arma piscou, instável.
Ibusuki cambaleou.
— O quê...?
Kagerou não deu chance para ele se recuperar. Girou por trás, cravou a segunda adaga na mesma região, e dessa vez os fios não apenas se romperam — se desfizeram por completo, como uma corda cortada bem no meio.
A fortificação inteira do machado desmoronou, o metal negro rachando, as placas irregulares se despedaçando, voltando ao aço comum de antes, sem brilho, sem peso sobrenatural algum.
Ibusuki, que até um segundo atrás sustentava aquela arma monstruosa com facilidade, de repente sentiu o peso verdadeiro dela — pesada demais para segurar com apenas um braço ferido.
O machado despencou na lama.
Kagerou não hesitou. Avançou com as duas adagas cruzadas e desferiu um golpe duplo contra o peito desprotegido do carrasco.
Ibusuki foi lançado para trás, rolando pela lama até ficar imóvel, o único olho vermelho perdendo o brilho aos poucos, como uma brasa se apagando.
Fiquei parado ali por um segundo, sem acreditar direito no que tinha acabado de acontecer.
— Eu... eu consegui? Quer dizer, eu não fiz quase nada, mas... eu ajudei?
— Confirmado. E, para constar: você fez mais do que "quase nada". Sua identificação do ponto de instabilidade contribuiu diretamente para o resultado do combate.
— Isso conta como XP ou alguma coisa assim?
— Recompensas de experiência ainda não foram processadas.
— Sério, você não facilita em nada.
Kagerou caiu de joelhos, respirando pesado, o corpo coberto de cortes e lama. Ergueu os olhos e me encarou por um segundo — não com raiva, nem desconfiança, mas com algo parecido com gratidão cansada.
— Boa mira mesmo — disse, antes de desabar sentado na lama, as duas adagas se apagando lentamente e se desfazendo de volta em pequenas esferas de luz ao seu redor.
Eu não tive tempo de comemorar.
Um grito cortou o ar — agudo, sufocado — vindo do outro lado do campo.
Virei a cabeça a tempo de ver Aria cair de joelhos.
— ARIA!
Zenshirou estava parado acima dela, as garras negras pingando aquele veneno oleoso, um sorriso satisfeito espalhado pelo rosto machucado.
— Já disse — falou ele, devagar, saboreando cada palavra. — Você devia ter recuado quando ainda tinha pernas pra isso.
O braço inteiro de Aria estava coberto pelas marcas negras agora, subindo até o pescoço. A espada enfaixada ainda estava em suas mãos, mas o cabo tremia visivelmente, como se cada segundo que passava roubasse um pouco mais da força que restava nela.
— Vão embora — disse ela, a voz rouca, mas ainda firme, dirigida a Kagerou e a mim, sem desviar os olhos de Zenshirou. — Não posso... proteger vocês e lutar ao mesmo tempo.
— Ah, que comovente — zombou Zenshirou, girando as garras entre os dedos. — A capitãzinha ainda tentando bancar a heroína até o último segundo. Vou até sentir saudade disso quando você não conseguir mais se mexer.
Kagerou tentou se levantar, mas as pernas cederam no mesmo instante, e ele voltou a cair sentado, sem forças nem para segurar as próprias adagas.
— Droga... — praguejou, batendo o punho na lama. — Não consigo... me mover direito.
— Consciência Superior — chamei, mentalmente, tentando manter a voz calma dentro da própria cabeça, o que era bem mais difícil do que parecia. — Aqueles fios negros ao redor das garras dele. Dá pra fazer a mesma coisa que eu fiz com o Ibusuki?
— Análise em andamento.
— Rápido, por favor!
— Estou tentando. Dê-me um segundo.
Foquei os olhos em Zenshirou, com toda a concentração que conseguia reunir, ignorando o coração disparado e o gosto de sangue ainda na boca.
Os fios ao redor dele eram diferentes dos de Ibusuki. Não eram densos e vermelhos — eram finos, negros, quase invisíveis, entrelaçados como uma teia de aranha ao redor das garras, se estendendo em fiapos até a ponta de cada dedo. Pareciam vivos, movendo-se sutilmente mesmo quando o braço dele estava parado.
"Lista de habilidades". Espera, ainda tem mais habilidades que posso usar? Mas como desbloqueio elas?
— Você pode desbloquear novas habilidades ao conseguir pontos. Eles são ganhos ao subir de nível ou despertar — como você acabou de fazer, aliás. Você ainda tem 3 pontos de habilidade guardados.
— Entendi... Valeu, Consciência Superior!
— De nada. Deseja alocar os pontos restantes agora?
Congelei por um segundo.
— Posso fazer isso... assim, no meio de uma batalha?
— Tecnicamente, sim. Mas, se me permite uma opinião, seria imprudente. Prefiro que você entenda bem as duas habilidades que já tem antes de complicar ainda mais as coisas. Pontos não utilizados não expiram — não há pressa.
— Certo, isso... faz sentido. Vamos com calma primeiro, então.
Outro estrondo sacudiu o chão, mais perto dessa vez. Uma nuvem de terra e lama subiu bem onde Kagerou tinha estado um segundo antes, e ele só escapou porque se jogou de lado no último instante, rolando pela lama antes de se levantar já com as duas adagas erguidas.
— Certo, "Olho Arcano" — chamei de novo, tentando manter o foco apesar do coração disparado. — Como eu uso isso direito? Só... penso nele e pronto?
— A habilidade já está ativa desde o momento em que foi desbloqueada. Você não precisa "usá-la" continuamente — ela funciona como uma extensão da sua percepção. O esforço necessário está em interpretar o que você vê, não em enxergar.
— Interpretar? Tipo... eu já estou vendo tudo isso, mas não sei o que significa?
— Exatamente. Essa costuma ser a parte mais frustrante.
— Ah, ótimo. Perfeito. Vejo tudo e não entendo nada. Muito útil.
— Isso foi sarcasmo — ela observou, num tom que quase soou como diversão contida. — Registrado. Vamos continuar.
Tentei focar melhor, olhando ao redor do machado de Ibusuki como tinha feito sem querer minutos antes. Dessa vez, prestando atenção de verdade, consegui notar filamentos vermelho-escuros se enroscando pelo cabo e pela lâmina, como veias grossas alimentando aquele brilho de brasa que cobria o metal inteiro.
— Tá... eu tô vendo uns... fios? Tipo cordas vermelhas grudadas na arma dele.
— Correto. Esses fios representam a estrutura de mana que sustenta a fortificação da arma. Quanto mais densos e organizados, mais estável é o efeito.
— E eu posso fazer alguma coisa com isso?
— Claro! Com os olhos arcanos você passa a enxergar a mana e com a sua habilidade recém desbloqueada de Tessitura, você pode controlar a mana.
Olhei para as próprias mãos, sentindo um formigamento estranho nas pontas dos dedos.
— Certo. "Tessitura."
Nada aconteceu.
— ...Sério?
— Tessitura não é uma habilidade de ativação instantânea. Ela permite manipular fios de mana previamente identificados pelo Olho Arcano. Sem um alvo definido e sem compreensão da estrutura observada, não há o que tecer.
— Então eu preciso tipo... escolher um fio específico? Não posso só falar "Tessitura" e esperar alguma coisa épica acontecer?
— Não. Gostaria que fosse tão simples quanto isso, mas não é.
— Tá bom, entendido. Sem coisa épica ainda.
Fixei os olhos de novo nos filamentos vermelhos ao redor do machado, tentando escolher um único fio entre aquela trama toda, como a Consciência Superior tinha sugerido. Mas assim que tentei puxar mentalmente, senti como se estivesse tentando arrancar um fio solto de um tecido grosso demais — a sensação vinha, mas não cedia nem um milímetro.
— Não tá funcionando. Os fios são grossos demais, ou sei lá.
— Análise confirmada. A estrutura de mana em torno da arma de Ibusuki está altamente concentrada, resultado de uma habilidade muito poderosa. Fios dessa densidade exigem controle avançado de Tessitura, incompatível com seu nível atual de compreensão.
— Perfeito. Então essa habilidade é praticamente decorativa até segunda ordem.
— Recomendo buscar um alvo com menor densidade de mana para praticar.
Foi só então que percebi — enquanto Kagerou continuava se esquivando por pouco de cada golpe do machado enegrecido — que perto do ombro esquerdo de Ibusuki, bem onde a adaga de Kagerou tinha cortado minutos atrás, aqueles fios vermelhos ficavam visivelmente mais finos. Quase esgarçados, como um tecido puído.
— Espera. Ali no ombro dele os fios tão... diferentes. Mais fracos.
— Confirmado. Concentração de mana reduzida na região do ombro esquerdo, coincidindo com o dano físico recebido anteriormente. Provável ponto de instabilidade na fortificação.
— Isso quer dizer que eu consigo puxar esse aí? O fio fraco?
— Possivelmente. A densidade reduzida está mais próxima da sua capacidade atual.
Não tive tempo de testar com calma. Um novo golpe do machado açoitou o ar tão perto de Kagerou que ele foi jogado para trás, escorregando pela lama, um dos braços cedendo por um instante antes de conseguir se firmar de novo.
— Não tenho tempo pra testar nada com cuidado, não é?
— Não parece que sim. Improvise.
— Ótimo. Adorei essa resposta motivacional.
Respirei fundo, ignorando o gosto de sangue ainda preso na boca, e gritei o mais alto que consegui:
— KAGEROU! O OMBRO ESQUERDO! A MANA DELE ESTÁ FRACA NO OMBRO ESQUERDO!
Por um instante, achei que ele nem tinha ouvido — estava ocupado demais desviando de um corte horizontal que quase levou a cabeça dele junto. Mas, no segundo seguinte, vi os olhos dele se estreitarem, calculando.
— Garoto de roupas esquisitas com boa mira, hm? — riu Ibusuki, sem desviar o olhar de Kagerou. — Não importa quantas fraquezas vocês encontrem. Fraquezas não servem de nada pra quem não tem forças pra explorá-las.
— Vamos ver — respondeu Kagerou, a voz rouca, mas firme.
As duas adagas de shinki se ergueram outra vez, o brilho pálido pulsando ao longo do fio.
Ibusuki avançou primeiro, o machado descendo em um golpe vertical pesado o bastante pra rachar pedra. Kagerou não tentou bloquear de frente — jamais teria força pra isso. Em vez disso, deslizou pela lateral, as duas lâminas cruzadas guiando o peso da arma para o chão, como já tinha feito dezenas de vezes antes.
Só que dessa vez, no instante em que passou ao lado do carrasco, girou o corpo com tudo o que lhe restava e cravou a adaga direita exatamente no ombro esquerdo.
— Isso, isso, ISSO! — gritei, sem conseguir me conter.
Os fios vermelhos que eu via ao redor da armadura dele se romperam num ponto, como um tecido cedendo depois de puxado tempo demais. A luz vermelha nas rachaduras da arma piscou, instável.
Ibusuki cambaleou.
— O quê...?
Kagerou não deu chance para ele se recuperar. Girou por trás, cravou a segunda adaga na mesma região, e dessa vez os fios não apenas se romperam — se desfizeram por completo, como uma corda cortada bem no meio.
A fortificação inteira do machado desmoronou, o metal negro rachando, as placas irregulares se despedaçando, voltando ao aço comum de antes, sem brilho, sem peso sobrenatural algum.
Ibusuki, que até um segundo atrás sustentava aquela arma monstruosa com facilidade, de repente sentiu o peso verdadeiro dela — pesada demais para segurar com apenas um braço ferido.
O machado despencou na lama.
Kagerou não hesitou. Avançou com as duas adagas cruzadas e desferiu um golpe duplo contra o peito desprotegido do carrasco.
Ibusuki foi lançado para trás, rolando pela lama até ficar imóvel, o único olho vermelho perdendo o brilho aos poucos, como uma brasa se apagando.
Fiquei parado ali por um segundo, sem acreditar direito no que tinha acabado de acontecer.
— Eu... eu consegui? Quer dizer, eu não fiz quase nada, mas... eu ajudei?
— Confirmado. E, para constar: você fez mais do que "quase nada". Sua identificação do ponto de instabilidade contribuiu diretamente para o resultado do combate.
— Isso conta como XP ou alguma coisa assim?
— Recompensas de experiência ainda não foram processadas.
— Sério, você não facilita em nada.
Kagerou caiu de joelhos, respirando pesado, o corpo coberto de cortes e lama. Ergueu os olhos e me encarou por um segundo — não com raiva, nem desconfiança, mas com algo parecido com gratidão cansada.
— Boa mira mesmo — disse, antes de desabar sentado na lama, as duas adagas se apagando lentamente e se desfazendo de volta em pequenas esferas de luz ao seu redor.
Eu não tive tempo de comemorar.
Um grito cortou o ar — agudo, sufocado — vindo do outro lado do campo.
Virei a cabeça a tempo de ver Aria cair de joelhos.
— ARIA!
Zenshirou estava parado acima dela, as garras negras pingando aquele veneno oleoso, um sorriso satisfeito espalhado pelo rosto machucado.
— Já disse — falou ele, devagar, saboreando cada palavra. — Você devia ter recuado quando ainda tinha pernas pra isso.
O braço inteiro de Aria estava coberto pelas marcas negras agora, subindo até o pescoço. A espada enfaixada ainda estava em suas mãos, mas o cabo tremia visivelmente, como se cada segundo que passava roubasse um pouco mais da força que restava nela.
— Vão embora — disse ela, a voz rouca, mas ainda firme, dirigida a Kagerou e a mim, sem desviar os olhos de Zenshirou. — Não posso... proteger vocês e lutar ao mesmo tempo.
— Ah, que comovente — zombou Zenshirou, girando as garras entre os dedos. — A capitãzinha ainda tentando bancar a heroína até o último segundo. Vou até sentir saudade disso quando você não conseguir mais se mexer.
Kagerou tentou se levantar, mas as pernas cederam no mesmo instante, e ele voltou a cair sentado, sem forças nem para segurar as próprias adagas.
— Droga... — praguejou, batendo o punho na lama. — Não consigo... me mover direito.
— Consciência Superior — chamei, mentalmente, tentando manter a voz calma dentro da própria cabeça, o que era bem mais difícil do que parecia. — Aqueles fios negros ao redor das garras dele. Dá pra fazer a mesma coisa que eu fiz com o Ibusuki?
— Análise em andamento.
— Rápido, por favor!
— Estou tentando. Dê-me um segundo.
Foquei os olhos em Zenshirou, com toda a concentração que conseguia reunir, ignorando o coração disparado e o gosto de sangue ainda na boca.
Os fios ao redor dele eram diferentes dos de Ibusuki. Não eram densos e vermelhos — eram finos, negros, quase invisíveis, entrelaçados como uma teia de aranha ao redor das garras, se estendendo em fiapos até a ponta de cada dedo. Pareciam vivos, movendo-se sutilmente mesmo quando o braço dele estava parado.
— Análise concluída — respondeu a Consciência Superior. — Estrutura de mana altamente flexível, adaptada para velocidade e penetração. Densidade de fios inferior à de Ibusuki, porém extremamente numerosa.
— Isso é bom ou ruim pra mim?
— Tessitura interage com maior facilidade com fios de baixa densidade do que com estruturas fortificadas. Mas o número de filamentos é grande demais. Romper um único fio, como você fez com Ibusuki, não vai detê-lo a tempo — a estrutura dele se reorganiza rápido demais pra isso.
— Então não dá pra fazer nada.
— Não foi isso que eu disse. — Houve uma pausa, quase deliberada, como se ela estivesse escolhendo com cuidado como explicar o que viria a seguir. — Existe outra aplicação de Tessitura que ainda não mencionei. Você não está limitado a manipular fios que já existem. Também pode tecer os seus próprios.
Levei um segundo pra processar aquilo.
— Espera, o quê? Eu tenho mana suficiente pra isso?
— Todo usuário de Tessitura carrega uma reserva latente, mesmo sem perceber. No seu caso é pouca, instável, e você nunca fez algo assim antes — as chances de falha são consideráveis. Mas, dada a situação... considero uma tentativa válida.
— "Considero uma tentativa válida" traduzido do robô pra o português seria "arrisque, garoto"?
— Seria uma tradução razoável, sim.
Zenshirou ergueu a garra, o sorriso se alargando, saboreando o momento.
— Última dança, capitã.
Não tive tempo de perguntar como fazer aquilo direito. Fechei as duas mãos com força, sentindo o mesmo formigamento estranho de antes nas pontas dos dedos — só que dessa vez ele não vinha de fora pra dentro, como quando eu tentava identificar fios alheios. Vinha de dentro pra fora, como se algo sob a minha própria pele estivesse procurando uma saída.
— Tessitura!
Não houve brilho nenhum, nenhuma luz dramática. Só uma sensação fina, quase dolorosa, de algo se esticando entre meus dedos, como se eu estivesse puxando fios de teia de aranha direto de dentro da própria carne.
Um fio não vai bastar dessa vez, pensei, tentando lembrar o que a Consciência Superior tinha dito sobre a quantidade de filamentos que cobriam as garras de Zenshirou. Preciso de mais.
Imaginei uma rede. Não um fio só, mas vários, se cruzando, se prendendo uns nos outros — do mesmo jeito que eu tinha visto os fios entrelaçados ao redor do machado de Ibusuki. Os dedos latejaram, uma dor fina subindo pelos braços, e senti algo se formar no ar à minha frente, quase invisível, tremulando como calor sobre asfalto quente.
Zenshirou avançou.
A garra desceu em direção ao pescoço de Aria — rápida, certeira, sem hesitação nenhuma.
E, no meio do caminho, parou.
Não completamente. Só o suficiente. O pulso dele travou a poucos centímetros do alvo, preso por uma rede de fios que nem eu conseguia enxergar direito, tremendo com a tensão de segurar um golpe daquela força.
— O que...?! — Zenshirou puxou o braço, tentando se libertar, mas a rede cedia e voltava a se firmar, elástica, como se absorvesse cada tentativa dele de se soltar.
— Consciência Superior, tá funcionando?! Não sei quanto tempo isso aguenta!
— Estrutura instável, mas ativa. Estimativa: dois, talvez três segundos antes da ruptura.
— Isso é muito tempo ou pouco tempo?!
— Depende do que a capitã fizer com ele.
Aria não precisou de nenhuma instrução.
No instante em que sentiu o peso da garra parar sobre ela, os olhos se abriram um pouco mais, entendendo na hora o que tinha acontecido, mesmo sem entender exatamente como. Anos de batalha ensinam a reconhecer uma abertura quando ela aparece — e essa era a única que ela teria.
Com um grito rouco que pareceu arrancar o que restava de força do corpo dela, Aria se lançou pra frente, a espada em riste, fechando de uma vez a distância que até então só a mantinha viva por pura defesa.
— Suspiro do Dragão... — a voz sussurrada, quase sem fôlego. — Reduza meu oponente ao pó!
A lâmina subiu num arco curto e brutal, mas não foi o aço que atingiu Zenshirou.
Uma massa de fogo irrompeu da espada como a mandíbula de uma fera colossal, alongando-se num instante e envolvendo seu corpo. Chamas alaranjadas, quase brancas no núcleo, se contorceram como escamas e presas antes de se fecharem sobre ele.
Foi exatamente nesse instante que a minha rede de fios finalmente se rompeu, incapaz de aguentar mais.
O rugido veio depois.
O fogo atravessou o ombro e o peito de Zenshirou como a mordida de um dragão, rasgando carne e queimando tudo em seu caminho. As chamas permaneceram cravadas na ferida por um instante, serpenteando para dentro do corpo antes que o sangue sequer tivesse tempo de escorrer.
Zenshirou parou.
Os olhos, antes cheios de escárnio, se arregalaram, incrédulos.
— Impossível... — murmurou, dando um passo trôpego para trás. — Uma... uma trava? Como...
As garras negras começaram a perder a forma, o veneno escorrendo pelos dedos como se algo dentro dele estivesse se desligando aos poucos. Ele deu mais um passo, cambaleante, os olhos ainda fixos em mim com uma mistura de raiva e descrença.
— Você... o que diabos você é...
Não teve tempo de terminar a pergunta. O corpo cedeu, e ele desabou de bruços na lama, imóvel.
Por um segundo, ninguém disse nada.
O campo inteiro parecia ter prendido a respiração junto comigo — o crepitar distante das chamas na paliçada, o vento levando fumaça sobre a lama encharcada de sangue, e nada mais.
— Eu... eu consegui de novo? — sussurrei, mais pra mim mesmo do que pra qualquer outra pessoa. — Consciência Superior, isso... isso realmente funcionou?
— Confirmado. Foi um controle de fios próprios bem-sucedido, sob pressão extrema, sem treino prévio. E, para constar: isso foi impressionante.
— Eu prendi o braço dele por uns dois segundos e isso foi suficiente pra derrubar ele?
— A imobilização, ainda que breve e instável, eliminou a única defesa que ele teria contra o ataque da capitã. Sua intervenção foi o fator decisivo.
Eu ri, baixinho, sem fôlego, sem acreditar direito que aquilo tinha vindo da minha própria cabeça e das próprias mãos.
Aria ainda estava de pé.
Por pouco tempo.
A espada escorregou de suas mãos e caiu com um baque surdo ao lado dela. As pernas cederam logo em seguida, e ela desabou de joelhos, depois de lado, o corpo inteiro finalmente entregando os pontos após sustentar, sozinho, tempo demais além do que deveria.
— ARIA!
Corri até ela — as pernas ainda bambas, o corpo ainda dolorido de cada golpe que tinha recebido antes —, e me ajoelhei ao seu lado. As marcas negras cobriam quase todo o braço e o pescoço agora, imóveis, mas não pareciam mais se espalhar.
Os olhos dela estavam entreabertos, vidrados de exaustão, mas ainda conscientes.
— Você... — sussurrou, a voz quase inaudível. — O que você fez...?
— Eu... não sei bem — admiti, sem fôlego, olhando para as próprias mãos como se elas fossem me dar alguma resposta que eu mesmo não tinha. — Eu só... vi um fio. E puxei.
Ela tentou sorrir, mas o esforço pareceu grande demais.
— Muito... obrigado, garoto de roupas esquisitas.
Os olhos dela se fecharam.
Por um segundo, achei que fosse só exaustão. Que ela ia dormir ali, respirar fundo, e no dia seguinte estaria de pé de novo, xingando todo mundo por ter se metido numa luta daquelas.
Então percebi que a respiração dela não estava desacelerando. Estava ficando mais curta. Mais rasa.
— Aria?
Nada.
— ARIA!
As marcas negras que cobriam o braço dela não tinham parado de se espalhar — eu só não tinha percebido, ocupado demais comemorando por dentro. Continuavam subindo, lentas, quase imperceptíveis, já alcançando a lateral do pescoço, perto da mandíbula.
— Consciência Superior, o que tá acontecendo com ela?! Por que ela não acorda?!
— Analisando.
— RÁPIDO!
— O veneno de Zenshirou continua ativo no organismo dela, independente da morte do usuário. A estrutura de mana que sustenta o efeito segue se espalhando pelo sistema circulatório. Estimativa: falência total dos órgãos em menos de três minutos, caso o processo não seja interrompido.
O mundo pareceu gelar ao meu redor.
— Três minutos?! Faz alguma coisa! Eu não sei, tira o veneno, dissolve isso, sei lá!
— ...
O silêncio dessa vez não pareceu deliberado, nem irônico. Pareceu ela realmente correndo contra o mesmo relógio que eu.
— Existe uma possibilidade — ela disse por fim. — Verifique sua lista de habilidades novamente.
Fechei os olhos, tremendo, e mentalizei o comando.
Lista de habilidades.
Dessa vez veio uma terceira opção que eu não tinha visto antes, ao lado de Olho Arcano e Tessitura. Diferente das outras duas — que eu sentia sempre ativas, como uma extensão natural de mim mesmo — essa parecia adormecida. Esperando.
Dissolver.
— Essa habilidade ainda não foi desbloqueada — a Consciência Superior confirmou, a voz mais rápida do que o normal, quase apressada. — Ao contrário de Olho Arcano e Tessitura, Dissolver não é passiva. Precisa ser ativada manualmente após o desbloqueio, e seu efeito é específico: desestrutura fluxos de mana já identificados, dissolvendo sua coesão.
— Isso serve pro veneno?
— O veneno de Zenshirou é, em sua essência, uma estrutura de mana negativa se alimentando do corpo dela. Se você conseguir enxergá-lo com Olho Arcano e aplicar Dissolver sobre essa estrutura, é possível interromper o processo.
— Então desbloqueia isso! Agora!
— O desbloqueio custa 2 pontos de habilidade.
— NÃO IMPORTA, FAZ ISSO!
— Feito.
Senti algo se assentar dentro de mim, pesado e estranho, como uma peça encaixando num lugar que eu nem sabia que existia.
Não tive tempo de sentir aquilo direito. Fechei os olhos com força e olhei — de verdade, com tudo o que o Olho Arcano conseguia me mostrar — para o corpo de Aria.
O que vi me deu vontade de vomitar.
Os fios negros do veneno não eram como os de Zenshirou. Não eram finos e organizados como uma teia. Eram grossos, irregulares, se espalhando pelas veias dela como raízes apodrecidas, pulsando devagar, avançando centímetro a centímetro em direção ao coração.
— Dissolver — sussurrei, mal reconhecendo a própria voz.
Dessa vez, a sensação foi completamente diferente de tudo que eu tinha sentido até então. Não era um puxão, nem um fio se esticando entre os dedos. Era como mergulhar as mãos em água parada e sentir alguma coisa se desfazer aos poucos ao redor delas — não com força, mas com insistência, com paciência.
As raízes negras mais próximas das minhas mãos pararam de pulsar.
Hesitaram.
E começaram a se desfazer, se desfiando em partículas escuras que se dissolviam no ar como fumaça, deixando a pele por baixo mais pálida, mas limpa.
— Tá funcionando... TÁ FUNCIONANDO!
— Confirmado. Concentração de mana negativa em queda constante. Continue.
Não sei quanto tempo fiquei ali, ajoelhado na lama, as duas mãos praticamente coladas na pele fria de Aria, seguindo cada fio negro até a raiz e desfazendo um por um, sentindo cada dissolução como um peso a menos nos próprios ombros. Perdi a noção de tudo ao redor — do cheiro de fumaça, do corpo de Kagerou desabado a alguns metros, do próprio cansaço que gritava em cada músculo meu.
Só parei quando a Consciência Superior falou de novo, o tom um pouco mais suave do que antes.
— Estrutura de mana negativa neutralizada. Sinais vitais estabilizando.
Só então percebi que estava chorando.
— Ela... ela vai ficar bem?
— As chances aumentaram significativamente. Recomendo, no entanto, atenção médica imediata para os danos residuais.
Foi nesse momento que ouvi cascos batendo contra a lama, vários de uma vez, se aproximando depressa.
Ergui a cabeça a tempo de ver um grupo de cavaleiros cercando a gente, as armaduras batendo umas nas outras, gritos de ordem se sobrepondo — "Médico, agora!", "Alguém segura o garoto, ele também tá ferido!", "A capitã ainda respira?!" — um caos organizado que, de repente, parecia o som mais bonito do mundo.
Um dos cavaleiros se ajoelhou do outro lado de Aria, checando o pulso dela com mãos rápidas e treinadas, e assentiu pra alguém atrás dele.
— Ela tá viva! Preparem a maca, rápido!
Só então minhas próprias forças pareceram sumir de uma vez, como se tivessem me abandonado no instante exato em que eu não precisava mais delas. Cambaleei pra trás, sentando com força na lama, as mãos ainda tremendo, ainda sujas daquele resíduo escuro que já não existia mais.
Tinha conseguido.
Eu olhei para minhas próprias mãos mais uma vez, sentindo o peso de tudo que tinha acabado de acontecer.
Não tinha espada. Não tinha força física nenhuma digna de nota. Mas, de alguma forma, tinha bastado.
— Consciência Superior... quantos pontos de habilidade eu ainda tenho?
— Um. Você utilizou dois para desbloquear Dissolver.
— Valeu a pena.
— Concordo.
Havia algo diferente naquela resposta — mais rápida, mais direta do que o normal, quase como se ela também tivesse sentido o peso daqueles últimos minutos.
Ao redor, o campo de batalha, finalmente, começava a se acalmar.
— Isso é bom ou ruim pra mim?
— Tessitura interage com maior facilidade com fios de baixa densidade do que com estruturas fortificadas. Mas o número de filamentos é grande demais. Romper um único fio, como você fez com Ibusuki, não vai detê-lo a tempo — a estrutura dele se reorganiza rápido demais pra isso.
— Então não dá pra fazer nada.
— Não foi isso que eu disse. — Houve uma pausa, quase deliberada, como se ela estivesse escolhendo com cuidado como explicar o que viria a seguir. — Existe outra aplicação de Tessitura que ainda não mencionei. Você não está limitado a manipular fios que já existem. Também pode tecer os seus próprios.
Levei um segundo pra processar aquilo.
— Espera, o quê? Eu tenho mana suficiente pra isso?
— Todo usuário de Tessitura carrega uma reserva latente, mesmo sem perceber. No seu caso é pouca, instável, e você nunca fez algo assim antes — as chances de falha são consideráveis. Mas, dada a situação... considero uma tentativa válida.
— "Considero uma tentativa válida" traduzido do robô pra o português seria "arrisque, garoto"?
— Seria uma tradução razoável, sim.
Zenshirou ergueu a garra, o sorriso se alargando, saboreando o momento.
— Última dança, capitã.
Não tive tempo de perguntar como fazer aquilo direito. Fechei as duas mãos com força, sentindo o mesmo formigamento estranho de antes nas pontas dos dedos — só que dessa vez ele não vinha de fora pra dentro, como quando eu tentava identificar fios alheios. Vinha de dentro pra fora, como se algo sob a minha própria pele estivesse procurando uma saída.
— Tessitura!
Não houve brilho nenhum, nenhuma luz dramática. Só uma sensação fina, quase dolorosa, de algo se esticando entre meus dedos, como se eu estivesse puxando fios de teia de aranha direto de dentro da própria carne.
Um fio não vai bastar dessa vez, pensei, tentando lembrar o que a Consciência Superior tinha dito sobre a quantidade de filamentos que cobriam as garras de Zenshirou. Preciso de mais.
Imaginei uma rede. Não um fio só, mas vários, se cruzando, se prendendo uns nos outros — do mesmo jeito que eu tinha visto os fios entrelaçados ao redor do machado de Ibusuki. Os dedos latejaram, uma dor fina subindo pelos braços, e senti algo se formar no ar à minha frente, quase invisível, tremulando como calor sobre asfalto quente.
Zenshirou avançou.
A garra desceu em direção ao pescoço de Aria — rápida, certeira, sem hesitação nenhuma.
E, no meio do caminho, parou.
Não completamente. Só o suficiente. O pulso dele travou a poucos centímetros do alvo, preso por uma rede de fios que nem eu conseguia enxergar direito, tremendo com a tensão de segurar um golpe daquela força.
— O que...?! — Zenshirou puxou o braço, tentando se libertar, mas a rede cedia e voltava a se firmar, elástica, como se absorvesse cada tentativa dele de se soltar.
— Consciência Superior, tá funcionando?! Não sei quanto tempo isso aguenta!
— Estrutura instável, mas ativa. Estimativa: dois, talvez três segundos antes da ruptura.
— Isso é muito tempo ou pouco tempo?!
— Depende do que a capitã fizer com ele.
Aria não precisou de nenhuma instrução.
No instante em que sentiu o peso da garra parar sobre ela, os olhos se abriram um pouco mais, entendendo na hora o que tinha acontecido, mesmo sem entender exatamente como. Anos de batalha ensinam a reconhecer uma abertura quando ela aparece — e essa era a única que ela teria.
Com um grito rouco que pareceu arrancar o que restava de força do corpo dela, Aria se lançou pra frente, a espada em riste, fechando de uma vez a distância que até então só a mantinha viva por pura defesa.
— Suspiro do Dragão... — a voz sussurrada, quase sem fôlego. — Reduza meu oponente ao pó!
A lâmina subiu num arco curto e brutal, mas não foi o aço que atingiu Zenshirou.
Uma massa de fogo irrompeu da espada como a mandíbula de uma fera colossal, alongando-se num instante e envolvendo seu corpo. Chamas alaranjadas, quase brancas no núcleo, se contorceram como escamas e presas antes de se fecharem sobre ele.
Foi exatamente nesse instante que a minha rede de fios finalmente se rompeu, incapaz de aguentar mais.
O rugido veio depois.
O fogo atravessou o ombro e o peito de Zenshirou como a mordida de um dragão, rasgando carne e queimando tudo em seu caminho. As chamas permaneceram cravadas na ferida por um instante, serpenteando para dentro do corpo antes que o sangue sequer tivesse tempo de escorrer.
Zenshirou parou.
Os olhos, antes cheios de escárnio, se arregalaram, incrédulos.
— Impossível... — murmurou, dando um passo trôpego para trás. — Uma... uma trava? Como...
As garras negras começaram a perder a forma, o veneno escorrendo pelos dedos como se algo dentro dele estivesse se desligando aos poucos. Ele deu mais um passo, cambaleante, os olhos ainda fixos em mim com uma mistura de raiva e descrença.
— Você... o que diabos você é...
Não teve tempo de terminar a pergunta. O corpo cedeu, e ele desabou de bruços na lama, imóvel.
Por um segundo, ninguém disse nada.
O campo inteiro parecia ter prendido a respiração junto comigo — o crepitar distante das chamas na paliçada, o vento levando fumaça sobre a lama encharcada de sangue, e nada mais.
— Eu... eu consegui de novo? — sussurrei, mais pra mim mesmo do que pra qualquer outra pessoa. — Consciência Superior, isso... isso realmente funcionou?
— Confirmado. Foi um controle de fios próprios bem-sucedido, sob pressão extrema, sem treino prévio. E, para constar: isso foi impressionante.
— Eu prendi o braço dele por uns dois segundos e isso foi suficiente pra derrubar ele?
— A imobilização, ainda que breve e instável, eliminou a única defesa que ele teria contra o ataque da capitã. Sua intervenção foi o fator decisivo.
Eu ri, baixinho, sem fôlego, sem acreditar direito que aquilo tinha vindo da minha própria cabeça e das próprias mãos.
Aria ainda estava de pé.
Por pouco tempo.
A espada escorregou de suas mãos e caiu com um baque surdo ao lado dela. As pernas cederam logo em seguida, e ela desabou de joelhos, depois de lado, o corpo inteiro finalmente entregando os pontos após sustentar, sozinho, tempo demais além do que deveria.
— ARIA!
Corri até ela — as pernas ainda bambas, o corpo ainda dolorido de cada golpe que tinha recebido antes —, e me ajoelhei ao seu lado. As marcas negras cobriam quase todo o braço e o pescoço agora, imóveis, mas não pareciam mais se espalhar.
Os olhos dela estavam entreabertos, vidrados de exaustão, mas ainda conscientes.
— Você... — sussurrou, a voz quase inaudível. — O que você fez...?
— Eu... não sei bem — admiti, sem fôlego, olhando para as próprias mãos como se elas fossem me dar alguma resposta que eu mesmo não tinha. — Eu só... vi um fio. E puxei.
Ela tentou sorrir, mas o esforço pareceu grande demais.
— Muito... obrigado, garoto de roupas esquisitas.
Os olhos dela se fecharam.
Por um segundo, achei que fosse só exaustão. Que ela ia dormir ali, respirar fundo, e no dia seguinte estaria de pé de novo, xingando todo mundo por ter se metido numa luta daquelas.
Então percebi que a respiração dela não estava desacelerando. Estava ficando mais curta. Mais rasa.
— Aria?
Nada.
— ARIA!
As marcas negras que cobriam o braço dela não tinham parado de se espalhar — eu só não tinha percebido, ocupado demais comemorando por dentro. Continuavam subindo, lentas, quase imperceptíveis, já alcançando a lateral do pescoço, perto da mandíbula.
— Consciência Superior, o que tá acontecendo com ela?! Por que ela não acorda?!
— Analisando.
— RÁPIDO!
— O veneno de Zenshirou continua ativo no organismo dela, independente da morte do usuário. A estrutura de mana que sustenta o efeito segue se espalhando pelo sistema circulatório. Estimativa: falência total dos órgãos em menos de três minutos, caso o processo não seja interrompido.
O mundo pareceu gelar ao meu redor.
— Três minutos?! Faz alguma coisa! Eu não sei, tira o veneno, dissolve isso, sei lá!
— ...
O silêncio dessa vez não pareceu deliberado, nem irônico. Pareceu ela realmente correndo contra o mesmo relógio que eu.
— Existe uma possibilidade — ela disse por fim. — Verifique sua lista de habilidades novamente.
Fechei os olhos, tremendo, e mentalizei o comando.
Lista de habilidades.
Dessa vez veio uma terceira opção que eu não tinha visto antes, ao lado de Olho Arcano e Tessitura. Diferente das outras duas — que eu sentia sempre ativas, como uma extensão natural de mim mesmo — essa parecia adormecida. Esperando.
Dissolver.
— Essa habilidade ainda não foi desbloqueada — a Consciência Superior confirmou, a voz mais rápida do que o normal, quase apressada. — Ao contrário de Olho Arcano e Tessitura, Dissolver não é passiva. Precisa ser ativada manualmente após o desbloqueio, e seu efeito é específico: desestrutura fluxos de mana já identificados, dissolvendo sua coesão.
— Isso serve pro veneno?
— O veneno de Zenshirou é, em sua essência, uma estrutura de mana negativa se alimentando do corpo dela. Se você conseguir enxergá-lo com Olho Arcano e aplicar Dissolver sobre essa estrutura, é possível interromper o processo.
— Então desbloqueia isso! Agora!
— O desbloqueio custa 2 pontos de habilidade.
— NÃO IMPORTA, FAZ ISSO!
— Feito.
Senti algo se assentar dentro de mim, pesado e estranho, como uma peça encaixando num lugar que eu nem sabia que existia.
Não tive tempo de sentir aquilo direito. Fechei os olhos com força e olhei — de verdade, com tudo o que o Olho Arcano conseguia me mostrar — para o corpo de Aria.
O que vi me deu vontade de vomitar.
Os fios negros do veneno não eram como os de Zenshirou. Não eram finos e organizados como uma teia. Eram grossos, irregulares, se espalhando pelas veias dela como raízes apodrecidas, pulsando devagar, avançando centímetro a centímetro em direção ao coração.
— Dissolver — sussurrei, mal reconhecendo a própria voz.
Dessa vez, a sensação foi completamente diferente de tudo que eu tinha sentido até então. Não era um puxão, nem um fio se esticando entre os dedos. Era como mergulhar as mãos em água parada e sentir alguma coisa se desfazer aos poucos ao redor delas — não com força, mas com insistência, com paciência.
As raízes negras mais próximas das minhas mãos pararam de pulsar.
Hesitaram.
E começaram a se desfazer, se desfiando em partículas escuras que se dissolviam no ar como fumaça, deixando a pele por baixo mais pálida, mas limpa.
— Tá funcionando... TÁ FUNCIONANDO!
— Confirmado. Concentração de mana negativa em queda constante. Continue.
Não sei quanto tempo fiquei ali, ajoelhado na lama, as duas mãos praticamente coladas na pele fria de Aria, seguindo cada fio negro até a raiz e desfazendo um por um, sentindo cada dissolução como um peso a menos nos próprios ombros. Perdi a noção de tudo ao redor — do cheiro de fumaça, do corpo de Kagerou desabado a alguns metros, do próprio cansaço que gritava em cada músculo meu.
Só parei quando a Consciência Superior falou de novo, o tom um pouco mais suave do que antes.
— Estrutura de mana negativa neutralizada. Sinais vitais estabilizando.
Só então percebi que estava chorando.
— Ela... ela vai ficar bem?
— As chances aumentaram significativamente. Recomendo, no entanto, atenção médica imediata para os danos residuais.
Foi nesse momento que ouvi cascos batendo contra a lama, vários de uma vez, se aproximando depressa.
Ergui a cabeça a tempo de ver um grupo de cavaleiros cercando a gente, as armaduras batendo umas nas outras, gritos de ordem se sobrepondo — "Médico, agora!", "Alguém segura o garoto, ele também tá ferido!", "A capitã ainda respira?!" — um caos organizado que, de repente, parecia o som mais bonito do mundo.
Um dos cavaleiros se ajoelhou do outro lado de Aria, checando o pulso dela com mãos rápidas e treinadas, e assentiu pra alguém atrás dele.
— Ela tá viva! Preparem a maca, rápido!
Só então minhas próprias forças pareceram sumir de uma vez, como se tivessem me abandonado no instante exato em que eu não precisava mais delas. Cambaleei pra trás, sentando com força na lama, as mãos ainda tremendo, ainda sujas daquele resíduo escuro que já não existia mais.
Tinha conseguido.
Eu olhei para minhas próprias mãos mais uma vez, sentindo o peso de tudo que tinha acabado de acontecer.
Não tinha espada. Não tinha força física nenhuma digna de nota. Mas, de alguma forma, tinha bastado.
— Consciência Superior... quantos pontos de habilidade eu ainda tenho?
— Um. Você utilizou dois para desbloquear Dissolver.
— Valeu a pena.
— Concordo.
Havia algo diferente naquela resposta — mais rápida, mais direta do que o normal, quase como se ela também tivesse sentido o peso daqueles últimos minutos.
Ao redor, o campo de batalha, finalmente, começava a se acalmar.
O balanço das rodas contra a terra batida foi o que me trouxe de volta.
Eu estava sentado numa das carroças do exército — dessas grandes, de madeira maciça e lona remendada, puxadas por dois cavalos que pareciam tão cansados quanto todo mundo ali dentro. Ao meu redor, outros soldados feridos ocupavam os bancos improvisados, alguns com bandagens ensanguentadas, outros só olhando pro nada, do mesmo jeito que eu devia estar olhando minutos atrás.
Não fazia ideia de quanto tempo tinha se passado desde o campo de batalha. Só sabia que meu corpo inteiro doía de um jeito que eu nunca tinha sentido antes, um cansaço que ia até os ossos, e que, de alguma forma, Aria tinha sido levada numa carroça diferente, mais à frente na coluna, com dois curandeiros do exército cuidando dela.
Viva. Isso era o que importava.
Encostei a cabeça na lateral de madeira da carroça, o balanço constante quase hipnótico, e resolvi finalmente checar aquilo que eu vinha adiando desde o fim da luta.
Status!
As informações surgiram na minha mente, silenciosas, como sempre — nada de luzes ou textos flutuantes, só dados se encaixando direto na consciência.
Eu estava sentado numa das carroças do exército — dessas grandes, de madeira maciça e lona remendada, puxadas por dois cavalos que pareciam tão cansados quanto todo mundo ali dentro. Ao meu redor, outros soldados feridos ocupavam os bancos improvisados, alguns com bandagens ensanguentadas, outros só olhando pro nada, do mesmo jeito que eu devia estar olhando minutos atrás.
Não fazia ideia de quanto tempo tinha se passado desde o campo de batalha. Só sabia que meu corpo inteiro doía de um jeito que eu nunca tinha sentido antes, um cansaço que ia até os ossos, e que, de alguma forma, Aria tinha sido levada numa carroça diferente, mais à frente na coluna, com dois curandeiros do exército cuidando dela.
Viva. Isso era o que importava.
Encostei a cabeça na lateral de madeira da carroça, o balanço constante quase hipnótico, e resolvi finalmente checar aquilo que eu vinha adiando desde o fim da luta.
Status!
As informações surgiram na minha mente, silenciosas, como sempre — nada de luzes ou textos flutuantes, só dados se encaixando direto na consciência.
Ren Mizushima
Nv. 1
Classe: Tecelão Raça: Humano
Atributos
Atributos Básicos
Força
1
Vitalidade
2
Inteligência
4
Destreza
1
Resistências
Resistência Física
1
Resistência Mágica
3
Habilidades
Consciência Superior
Benção Divina S
Hábilidade única concedida pela deusa do amor.
Olho Arcano Inferior
Passiva F
Essa habilidade permite ao usuário enxergar a forma simples e básica da mana.
Tessitura
Passiva F
Habilidade inicial do tecelão, permite que ele manipule a mana.
Dissolver
Ativa E
A habilidade 'dissolver' permite que o usuário reverta o fluxo da mana anulando o seu comportamento.
Pontos de habilidade restantes: 1
Fiquei um bom tempo olhando pra aquele "1/200" de mana, sem conseguir desgrudar os olhos dele.
— Consciência Superior... isso aqui tá certo? Um de quarenta?
— Correto.
— Eu quase zerei minha mana?
— Você chegou extremamente perto disso, sim.
Engoli em seco.
— E se eu tivesse zerado? O que teria acontecido?
Dessa vez, o silêncio dela durou um pouco mais do que o normal.
— Prefiro não responder isso agora.
— Isso não é nada tranquilizador, sabia?
— Não era essa a intenção.
Olhei pras próprias mãos de novo — as mesmas mãos que, poucos minutos atrás, tinham tecido uma rede capaz de deter um mercenário nível avançado e dissolvido um veneno que estava prestes a matar a capitã do exército inteiro. Agora, só tremiam de exaustão, largadas no colo, quase incapazes de se fechar direito.
Um ponto de habilidade. Quarenta de mana, e só um sobrando.
Eu tinha ficado no limite. No limite absoluto.
E, de alguma forma, ainda estava vivo pra sentir aquilo.
— Consciência Superior...
— Sim?
— Da próxima vez, me avisa antes de eu chegar tão perto do zero, tá?
— Farei o possível.
Fechei os olhos, deixando o balanço da carroça me embalar, o corpo cedendo finalmente ao cansaço que vinha segurando havia o que pareciam horas.
A última coisa que pensei, antes de apagar de vez, foi que aquele "farei o possível" soava suspeitosamente parecido com uma promessa que ela não tinha certeza se conseguiria cumprir.
— Consciência Superior... isso aqui tá certo? Um de quarenta?
— Correto.
— Eu quase zerei minha mana?
— Você chegou extremamente perto disso, sim.
Engoli em seco.
— E se eu tivesse zerado? O que teria acontecido?
Dessa vez, o silêncio dela durou um pouco mais do que o normal.
— Prefiro não responder isso agora.
— Isso não é nada tranquilizador, sabia?
— Não era essa a intenção.
Olhei pras próprias mãos de novo — as mesmas mãos que, poucos minutos atrás, tinham tecido uma rede capaz de deter um mercenário nível avançado e dissolvido um veneno que estava prestes a matar a capitã do exército inteiro. Agora, só tremiam de exaustão, largadas no colo, quase incapazes de se fechar direito.
Um ponto de habilidade. Quarenta de mana, e só um sobrando.
Eu tinha ficado no limite. No limite absoluto.
E, de alguma forma, ainda estava vivo pra sentir aquilo.
— Consciência Superior...
— Sim?
— Da próxima vez, me avisa antes de eu chegar tão perto do zero, tá?
— Farei o possível.
Fechei os olhos, deixando o balanço da carroça me embalar, o corpo cedendo finalmente ao cansaço que vinha segurando havia o que pareciam horas.
A última coisa que pensei, antes de apagar de vez, foi que aquele "farei o possível" soava suspeitosamente parecido com uma promessa que ela não tinha certeza se conseguiria cumprir.