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Capítulo 4

Recomeçando

◆ ◆ ◆
6.991 palavras 24 de agosto de 2026
Poucas coisas pareciam tão boas quanto acordar em uma cama.

Bem, “boa” talvez fosse exagero. O colchão da hospedaria rangia a cada movimento e estava cheio de nós e depressões, enquanto o travesseiro achatado mal merecia esse nome. Ainda assim, depois de dias dormindo sobre terra batida e de uma noite amarrado num galpão que fedia a mofo e sangue seco, aquilo parecia um luxo.

Fiquei alguns minutos encarando o teto antes de pensar em me levantar.

A luz da manhã atravessava as frestas da janela, espalhando faixas amareladas pelo quarto. Do lado de fora, a cidade começava a acordar: vozes, rodas de carroça raspando contra as pedras, alguém anunciando peixe fresco.

Um som comum.

Quase reconfortante.

Por um instante, consegui esquecer onde estava.

Quase parecia uma manhã normal.

Quase.

Passei a mão pelo rosto. A bochecha ainda doía onde o homem da cicatriz havia me acertado. Fechei os olhos por um instante e, como sempre, a lembrança voltou.

A madeira fria contra meu rosto.

O machado sendo erguido.

Meu coração batendo tão forte que eu tinha certeza de que todos podiam ouvi-lo.

Parece até que tudo o que vivi nesses últimos dias foi um pesadelo.

Eu quase preferia que fosse.

Mas pesadelos terminavam quando você acordava.

Esse não.

Ele só havia mudado de forma.

Já fazia dias desde aquela tarde no pátio da escola. Sete dias só de viagem à carroça, cavalgadas e acampamentos improvisados à beira da estrada. Tempo suficiente para eu achar que deveríamos ter atravessado metade do país, enquanto os soldados tratavam a viagem como algo perfeitamente normal.

“Até que foi rápido”, um deles havia comentado no terceiro dia.

Rápido.

Aquilo me fez perceber o quanto eu ainda estava comparando aquele mundo com o meu.

No Japão, sete dias significavam velocidade, comunicação instantânea, máquinas, trens, telas e informação a qualquer momento. Ali, uma viagem dependia de cavalos, carroças, estradas e do próprio ritmo da caminhada.

Não era o tempo que passava mais devagar.

Era o mundo.

Eu até havia perguntado à Consciência Superior se existia alguma diferença real na passagem do tempo.

A resposta tinha sido simples:

“Dados insuficientes para uma análise conclusiva. Recomendo mais observação.”

Traduzindo do robô para o português: ela também não fazia ideia.

Suspirei e finalmente me sentei.

Meus pés tocaram o chão frio.

O quarto era pequeno: uma cômoda torta, uma bacia com água e uma vela quase consumida sobre a mesa de cabeceira.

Nada especial.

Mas havia quatro paredes, uma porta que trancava e, principalmente, ninguém tentando me matar.

Depois de tudo aquilo, já era o bastante.
Foi então que aquela voz familiar — embora ainda estranha por surgir de dentro da minha própria cabeça — se manifestou sem que eu a chamasse.

— Bom dia. Você está acordado há quatro minutos e ainda não verificou seu status. Isso é atipicamente lento para você.

— Eu literalmente acabei de abrir os olhos — resmunguei. — Deixa eu pelo menos lembrar meu próprio nome antes de começar a olhar números.

— Seu nome é Ren Mizushima. Confirmado.

Pisquei.

— Isso foi sarcasmo?!

— Estou aprendendo com você.

Revirei os olhos, mas um pequeno sorriso escapou.

Depois de tudo que havia acontecido, aquela voz seca e levemente debochada tinha se tornado uma das poucas coisas familiares que me restavam.

Não era Takamori.

Não eram meus pais.

Não eram meus amigos.

Não era minha antiga vida.

Mas era alguma coisa.

— Certo — murmurei, esfregando o rosto. — Status.

As informações surgiram diretamente na minha consciência.

Nenhuma janela apareceu diante dos meus olhos. Nenhuma tela flutuante.

Eu simplesmente sabia.

Como uma lembrança que sempre estivera ali, esperando para ser acessada.

E havia algo diferente dessa vez.

O sistema tinha atualizado.
Fiquei alguns segundos encarando os dados.

— Nível três?

Sentei-me mais reto.

— Eu estava no um quando desmaiei. E tinha só um ponto de habilidade.

— Correto.

— Então eu subi dois níveis dormindo?

— Não exatamente.

A Consciência fez uma pequena pausa.

— A experiência obtida no confronto contra Ibusuki e Zenshirou ainda estava sendo processada. A conversão não é instantânea.

— Então ela ficou acumulada?

— Em termos simples, sim. Parte da experiência foi integrada à sua estrutura de mana ao longo dos últimos sete dias.

— E quanto mais difícil o combate...

— Maior o processamento necessário.

Olhei novamente para o nível três.

Então era isso.

Eu não tinha ficado mais forte por algum milagre enquanto dormia. Só estava recebendo, aos poucos, o resultado de algo que já havia acontecido.

— E por que você não me contou isso antes?

— Você não perguntou.

— Claro que não perguntou — murmurei. — Eu nem sabia que precisava perguntar.

A resposta, naturalmente, foi o silêncio.

Suspirei e passei os olhos pelos atributos.

Alguns números tinham aumentado. A resistência mágica, principalmente, estava bem maior do que antes.

E havia quatro pontos esperando por mim.

— Posso usar esses pontos agora?

— Pode. Mas recomendo cautela.

— Por quê?

— Novas habilidades podem definir sua forma de combate. Uma escolha inadequada pode limitar suas opções no futuro.

Isso me fez parar.

Pensei no campo de batalha.

No machado de Ibusuki.

Na armadura que levei tempo demais para entender.

Na sensação de estar sempre um passo atrás enquanto Kagerou e Aria simplesmente agiam.

Minha Tessitura era útil.

Mas, no estado atual, eu precisava enxergar, compreender e decidir antes de conseguir fazer alguma coisa.

— A Tessitura vai continuar assim?

— No seu estágio atual, sim. Ela exige identificação da estrutura antes da manipulação.

— Então, se alguém vier correndo na minha direção com uma espada...

— Você provavelmente será atingido antes de concluir a análise.

Fiquei em silêncio.

— Que ótimo.

— Recomendo desenvolver uma forma de combate mais imediata.

Lembrei das adagas de Kagerou. Da espada de Aria. Dos soldados que eu havia visto durante a viagem.

Naquele mundo, ninguém parecia esperar a magia resolver tudo.

— Então eu preciso aprender a lutar.

— Seria uma escolha sensata.

Dessa vez, não discuti.

Os quatro pontos continuavam ali.

Eu não iria gastá-los ainda.

Se havia aprendido alguma coisa nos últimos dias, era que tomar decisões sem entender as consequências era uma ótima maneira de acabar morto.

— Vou guardar por enquanto.

— Decisão sensata.

— Você está começando a gostar dessa palavra, não é?

— Talvez.

Sorri.

Finalmente me levantei da cama.

Eu precisava aprender muita coisa sobre aquele mundo.

E, aparentemente, uma delas era descobrir como sobreviver sem depender apenas da magia.
Uma batida na porta interrompeu meus pensamentos.

Eu ainda terminava de amarrar as botas marrons que havia recebido dos soldados. Meu blazer tinha desaparecido em algum momento da viagem, e meus sapatos estavam completamente destruídos.

O restante do uniforme, por algum milagre, ainda estava inteiro.

Camisa, colete, calça e até a gravata.

Estava tudo amassado e sujo, mas serviria por enquanto.

— Já acordou, garoto estranho?

Reconheci a voz.

Abri a porta e encontrei Kagerou no corredor, o antebraço esquerdo ainda coberto por um curativo.

— Eu tenho nome, sabia?

— Eu sei.

— E continua me chamando de garoto estranho?

— Funciona bem.

Ele entrou antes que eu pudesse responder.

— Como está o braço?

— Bem melhor.

Kagerou fez um movimento despreocupado com o braço ferido.

— E você parece menos morto do que ontem.

— Vou considerar isso um elogio.

— Considere como quiser.

Ele se virou para sair, mas parei.

— E a Aria?

A expressão dele suavizou.

— Está estável. Ainda não acordou, mas os curandeiros dizem que vai ficar bem.

Só então percebi que estava prendendo a respiração.

— Que bom.

— O veneno deixou alguns danos, mas nada que o tempo não possa resolver.

Assenti.

Kagerou então olhou para minhas roupas.

— Ainda não me acostumei com isso.

— Com a roupa?

— Com você.

Ele apontou para minha gravata.

— Já conheci gente de muitos lugares. Nunca vi alguém vestido assim.

— Eu vim de longe.

— Percebi.

Ele me encarou por alguns segundos.

— Muito longe?

Fiquei em silêncio.

— Imaginei.

Para minha surpresa, ele não insistiu.

Apenas deu de ombros e caminhou pelo corredor.

— Você também não conhece quase nada daqui. Isso ficou bem claro durante a viagem.

— Eu...

— Não precisa explicar.

Ele olhou por cima do ombro.

— Seja lá de onde você veio, parece ser um lugar bem diferente daqui.

A frase me pegou desprevenido.

Talvez fosse melhor deixá-lo acreditar nisso.

— É — respondi. — Bastante.

Kagerou sorriu de leve.

— Então vai precisar aprender algumas coisas.

— Tipo?

— Quase tudo.

— Isso não parece pouco.

— Não é.

Ele continuou andando.

— Mas podemos começar pelo café da manhã.

Suspirei e fui atrás dele.

Depois de tudo que havia acontecido, eu realmente não tinha como discordar.

Eu precisava aprender a viver naquele mundo.

E, aparentemente, Kagerou estava disposto a me ensinar.
A sala comum da hospedaria cheirava a pão fresco e alguma coisa sendo frita nos fundos. Kagerou escolheu uma mesa perto da janela e pediu o café para nós dois antes mesmo que eu abrisse o cardápio.

Pão, um mingau espesso de aveia com mel e uma bebida que a taverneira insistia em chamar de “chá da manhã”. Tinha um gosto amargo o suficiente para fazer qualquer chá que eu conhecesse parecer água com açúcar.

Kagerou comeu em silêncio por alguns instantes antes de apoiar os cotovelos na mesa.

— Então? O que você quer saber?

Olhei para ele.

— Tudo.

Ele soltou uma risada curta.

— Então vamos começar pelo que você realmente precisa saber.

Kagerou pegou um pedaço de pão e continuou, sem pressa:

— Você já percebeu que mana está no centro de praticamente tudo por aqui. Classes, habilidades, magia... quase tudo depende dela. Mas não é só isso que move o mundo. Existe outra coisa tão importante quanto mana: território.

Ele molhou o dedo no chá e desenhou uma linha torta sobre a madeira da mesa.

— Existem dois grandes impérios. Kozova, ao norte, e Aureth, ao sul. São as maiores potências do continente. Exércitos enormes, territórios gigantescos e uma história de guerras que ninguém parece cansado o bastante para esquecer. Hoje existe paz, mas ninguém acredita que ela vá durar para sempre.

— E Veldoria?

— Está no meio dos dois.

Ele limpou o dedo na borda da xícara.

— É um reino menor, mas vem crescendo rápido. Território, comércio, população... tudo aumentou bastante nos últimos vinte anos. Isso trouxe riqueza, mas também chamou atenção.

— Dos impérios?

— Deles também. Mas o problema mais imediato está dentro do próprio reino.

O tom dele ficou um pouco mais sério.

— Quando um lugar cresce rápido demais, algumas pessoas ficam ricas enquanto outras ficam para trás. E onde existe gente desesperada, sempre aparece alguém disposto a lucrar com isso.

Meu estômago apertou.

— Os Filhos da Noite.

Kagerou assentiu.

— Mercadores de escravos, sequestradores e mercenários. Usam negócios legais como fachada e fazem o resto desaparecer por baixo da mesa. Pessoas são capturadas, transportadas e vendidas longe de onde foram levadas. Quanto menos perguntas, melhor.

Ele baixou os olhos por um instante.

— Zenshirou era um dos homens que comandavam essas operações. Ibusuki trabalhava diretamente para ele.

Pensei no galpão.

Nas correntes.

Nas pessoas que mal conseguiam levantar a cabeça.

— Então vocês estavam atrás deles há quanto tempo?

— Meses. A operação que encontrou você foi a maior oportunidade que tivemos até agora.

— E acabou?

Kagerou negou com a cabeça.

— Não. Derrubamos dois nomes importantes e resgatamos vinte e três pessoas. Foi uma vitória. Mas os Filhos da Noite ainda existem.

Fiquei olhando para o mingau, que já começava a esfriar.

— Tinha um homem mais velho naquele galpão. Barba desgrenhada, uma cicatriz na testa. Você sabe o que aconteceu com ele?

Kagerou ficou alguns segundos em silêncio.

— Não sei.

A resposta foi simples.

— Quando voltar ao quartel, posso procurar o registro dos resgatados. Se ele estiver entre eles, eu descubro.

Assenti.

Não era a resposta que eu queria, mas era melhor do que uma promessa vazia.

Ficamos em silêncio por alguns instantes. Kagerou percebeu meu estado e deliberadamente mudou de assunto.

— E você? Já decidiu o que vai fazer agora?

— Não faço ideia.

Dei uma olhada para as próprias mãos.

— Eu tenho uma classe, uma habilidade que mal entendo e quatro pontos que não faço ideia de onde gastar. Nem sei o que esperam que eu faça com isso.

— Ninguém espera nada de você ainda.

Ele deu de ombros.

— Você acabou de chegar.

— Então o que as pessoas fazem quando estão nessa situação?

— A maioria procura a Guilda dos Aventureiros.

— Guilda?

— É uma organização que registra trabalhos e contratos para aventureiros independentes. Caçar monstros, escoltar caravanas, procurar pessoas, coletar materiais... tem de tudo. Você escolhe o trabalho, recebe pelo serviço e, em teoria, ninguém fica dizendo o que fazer com sua vida.

— Parece melhor do que entrar para o exército.

— Para alguém como você, provavelmente.

— Alguém como eu?

Kagerou me lançou um olhar rápido.

— Alguém que acabou de aparecer sem conhecer ninguém e sem saber direito onde está pisando.

Não consegui discutir.

— E o exército não gosta dos aventureiros?

— Alguns não gostam. Acham que aventureiro é só mercenário com menos disciplina.

— E você?

Ele pensou por um instante.

— Acho que depende da pessoa. Farda não transforma ninguém em herói, assim como não usar uma não transforma ninguém em criminoso.

Aquilo me fez sorrir.

— Então você não vai tentar me convencer a entrar para o exército?

— Não.

— Que decepcionante.

— Posso tentar amanhã, se quiser.

Ri baixo.

Talvez fosse justamente aquilo que eu precisava.

Uma escolha que fosse minha.

Eu não tinha escolhido chegar naquele mundo. Não tinha escolhido perder minha antiga vida. Mas talvez pudesse escolher o que fazer dali em diante.

— Acho que vou tentar a Guilda.

— Imaginei.

Kagerou terminou o pão e se levantou.

— Então vá cedo. Fica cheia rápido.

Ele deixou algumas moedas sobre a mesa e caminhou até a porta. Eu me levantei para acompanhá-lo, mas ele parou antes de sair.

— Só tem um problema.

— Qual?

Kagerou olhou para mim de cima a baixo.

— Você não tem uma espada.

Olhei para minha cintura vazia.

— Eu tenho a Tessitura.

— Eu sei.

Ele não sorriu dessa vez.

— E também sei quanto tempo você levou para usá-la naquele campo. Se alguém vier tentar cortar sua garganta, duvido que ele tenha a educação de esperar você terminar de analisar o fio.

Não consegui responder.

A Consciência Superior já havia me dito praticamente a mesma coisa naquela manhã.

Kagerou suspirou.

— Neste mundo, principalmente entre pessoas que ainda não são fortes o bastante para depender de magia, a espada resolve muita coisa.

Ele apontou para a saída.

— E você precisa aprender a usá-la.

— Você vai me ensinar?

— Primeiro vou conseguir uma para você.

— E eu vou pagar quanto?

Kagerou abriu um sorriso.

— Considere parte do pagamento por ter salvado a capitã.

— Isso parece caro.

— Muito.

Ele abriu a porta.

— Anda. Conheço um ferreiro.

Olhei uma última vez para a mesa, depois para minha roupa surrada.

Eu ainda não tinha ideia de como seria minha vida naquele mundo.

Mas, pelo menos, estava começando a parecer que eu poderia escolher alguma coisa.

Segui Kagerou para fora da hospedaria.

Minha primeira espada me esperava em algum lugar daquela cidade.

E, pelo jeito, eu também precisaria de algo para vestir além das roupas do meu mundo.
Não era exatamente uma loja de armas.

O estabelecimento ficava em uma construção elegante de madeira escura e pedra, espremida entre dois prédios de aparência igualmente refinada. Não havia armas penduradas do lado de fora nem placas chamativas anunciando preços. Apenas uma pequena insígnia metálica acima da porta indicava que aquele lugar pertencia a um ferreiro.

Assim que entramos, percebi a diferença.

O ambiente era espaçoso, silencioso e cuidadosamente organizado. Algumas espadas estavam expostas em suportes de madeira escura, cada uma posicionada de maneira que fosse possível observar sua lâmina e sua empunhadura. Havia também peças de armadura, escudos e outras armas, mas nada parecia estar ali simplesmente para preencher espaço.

Tudo tinha uma aparência refinada.

Aquilo definitivamente não era o tipo de lugar onde alguém entrava procurando pela espada mais barata que pudesse encontrar.

Um homem corpulento estava atrás de um balcão. As mãos grandes eram cobertas por calos, pequenas cicatrizes e marcas antigas de queimadura. Apesar disso, havia algo surpreendentemente cuidadoso em seus movimentos enquanto organizava algumas ferramentas sobre a bancada.

Ele ergueu os olhos quando entramos.

— Kagerou.

O ferreiro cumprimentou-o com um breve aceno.

— Faz tempo.

— Faz mesmo.

Kagerou apontou para mim.

— Ele precisa de uma espada.

O ferreiro me olhou.

Não foi exatamente um olhar desconfiado. Parecia mais uma avaliação profissional. Seus olhos passaram pela minha postura, pelas minhas mãos e pelo meu corpo ainda magro.

— Entendo.

Kagerou cruzou os braços.

— Algo que ele consiga usar.

— Então deixe o garoto escolher.

Fiquei um pouco surpreso.

— Eu?

— Você é quem vai carregar a espada — respondeu o ferreiro. — É melhor que escolha alguma coisa de que realmente goste.

Comecei a olhar ao redor.

Havia várias espadas.

Algumas eram largas e pesadas, claramente feitas para golpes poderosos. Outras tinham empunhaduras ornamentadas, com detalhes que provavelmente denunciavam o preço antes mesmo de alguém perguntar.

Continuei caminhando pelo interior da loja.

Até que parei.

Havia uma espada em um suporte um pouco mais afastado das demais.

Ela chamou minha atenção imediatamente.

Não sabia explicar exatamente por quê.

Talvez fosse o formato.

A lâmina era reta e de dois gumes, longa e esguia, com um acabamento muito mais fino do que o das outras espadas expostas. Não parecia exageradamente pesada nem feita para ser usada pela força bruta.

Mas era a empunhadura que realmente me prendia os olhos.

O cabo era completamente preto, envolvido por uma trama de tecido apertada e cuidadosamente entrelaçada. A guarda reta, posicionada entre o cabo e a lâmina, também era escura, mas possuía detalhes dourados que refletiam discretamente a luz do ambiente.

A bainha seguia o mesmo padrão.

Preta, elegante e relativamente simples, com pequenos detalhes dourados nas extremidades.

Fiquei alguns segundos apenas olhando.

— Essa...

O ferreiro ergueu os olhos.

— Gostou dela?

Assenti.

— Gostei.

Aproximei-me um pouco mais.

— Nunca vi uma espada assim.

O ferreiro abriu um pequeno sorriso.

— É porque você não deveria ter visto.

Olhei para ele.

— Como assim?

Ele se aproximou e retirou a espada do suporte.

— Essa é uma das minhas criações mais recentes.

Colocou-a sobre o balcão.

— Ainda não fiz muitas iguais.

Meus olhos voltaram imediatamente para a espada.

— Posso pegar?

— Claro.

Ele a entregou para mim.

Segurei o cabo.

A primeira coisa que percebi foi o equilíbrio.

A espada não parecia pesada demais, mas também não dava a sensação de ser frágil. O peso se distribuía de uma maneira estranhamente natural, e a empunhadura revestida de tecido se acomodava perfeitamente entre meus dedos.

Fiz um pequeno movimento com o pulso.

A lâmina acompanhou o gesto com uma facilidade que me surpreendeu.

— Ela é leve.

— Comparada às espadas comuns, sim.

Olhei novamente para a lâmina.

— E essa espessura...

— Faz parte do projeto.

O ferreiro apoiou os braços sobre o balcão.

— Tenho trabalhado em um modelo diferente. Uma lâmina mais fina e mais leve que o comum, mais adequada para movimentos rápidos e cortes precisos. A ideia ainda é relativamente nova por aqui.

Passei os olhos pela espada mais uma vez.

Não sabia quase nada sobre armas.

Ainda assim, havia alguma coisa nela que me atraía.

Talvez porque fosse diferente.

Talvez porque parecesse exatamente o tipo de espada que eu sempre imaginava nas histórias de aventura que conhecia de outro mundo.

— Eu gostei muito dela.

O ferreiro ficou em silêncio por um instante.

Então olhou para Kagerou.

— Você já tinha alguma em mente?

— Não.

— Ótimo.

Ele voltou a olhar para mim.

— Então pode ficar com essa.

Pisquei.

— O quê?

— Fique com ela.

Olhei para a espada.

Depois para o ferreiro.

— Mas...

— É um presente.

— Um presente?

— Sim.

Kagerou ergueu uma sobrancelha, aparentemente tão surpreso quanto eu.

— Tem certeza?

— Tenho.

O ferreiro pegou a bainha e colocou-a sobre o balcão.

— Eu ainda estou desenvolvendo esse modelo. Ela não foi feita para ficar parada em uma parede. Se alguém gostar dela o suficiente para realmente usá-la, melhor ainda.

— Mas ela parece cara.

— E é.

Ele respondeu sem hesitar.

— Justamente por isso não estou dando para qualquer um.

Olhei novamente para a espada.

— Então por que para mim?

O ferreiro deu de ombros.

— Porque você olhou para ela antes de perguntar quanto custava.

Fiquei sem resposta.

Ele continuou:

— A maioria das pessoas entra aqui procurando uma arma que combine com a própria posição, com o próprio dinheiro ou com o próprio nome. Você simplesmente viu a espada e gostou dela.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Prefiro isso.

Kagerou soltou uma risada baixa.

— Parece que ele teve sorte.

— Ou a espada teve.

Olhei para os dois.

— Vocês realmente vão deixar eu levar uma arma dessas de graça?

— Não é de graça — respondeu o ferreiro.

Franzi a testa.

— Não?

— Quero que cuide dela.

Ele apontou para a espada.

— E quero que volte aqui quando tiver experiência suficiente para me dizer o que achou. Quero saber como ela se comporta depois de ser usada de verdade.

Passei o polegar discretamente pelo revestimento escuro do cabo.

— Pode deixar.

— E aprenda a usá-la antes de tentar fazer alguma loucura.

Kagerou imediatamente entrou na conversa:

— Isso eu já ia dizer.

— Então estamos de acordo.

Guardei a espada cuidadosamente na bainha.

O som suave da lâmina deslizando para dentro da bainha pareceu marcar o fim da conversa.

Prendi a espada ao meu quadril.

Era estranho.

Até poucos minutos atrás, eu não tinha sequer imaginado que sairia dali com uma arma.

Agora tinha uma.

E não era apenas uma espada qualquer que alguém havia escolhido por mim.

Eu tinha olhado para ela, gostado dela e, por algum motivo que ainda não compreendia completamente, ela agora era minha.

— Obrigado — falei.

O ferreiro apenas assentiu.

— Faça bom uso dela.

Kagerou já caminhava em direção à porta.

— Certo. Agora vamos.

— Para onde?

— Guilda dos Aventureiros.

Olhei para a espada presa ao meu quadril.

— E a armadura?

— Depois.

Ele abriu a porta.

— Primeiro você precisa descobrir se consegue sobreviver como aventureiro. Depois pensamos em equipá-lo como um.

— Justo.

Saímos da loja.

A rua principal da capital de Veldoria era mais movimentada do que qualquer coisa que eu já tinha visto — e olha que eu tinha crescido numa cidade grande o bastante para ter trem lotado todo santo dia.

Só que aqui, o barulho era de outro tipo.

Casco de cavalo contra pedra, roda de carroça rangendo, vendedores gritando preços de frutas e tecidos, crianças correndo entre as pernas dos adultos com uma liberdade que eu já não via havia anos.

Os prédios eram de pedra clara e madeira escura, com telhados inclinados cobertos por telhas vermelhas desbotadas.

No alto de uma colina distante, um castelo se erguia.

Sólido, imponente, cercado por muralhas que pareciam ter visto sua boa dose de guerras.

Bandeiras verdes e douradas tremulavam ao longo delas, o símbolo de Veldoria visível mesmo à distância.

Segui as instruções de Kagerou enquanto tentava absorver o máximo daquele lugar sem parecer o turista completamente perdido que, tecnicamente, eu era.

Ninguém prestava muita atenção em mim.

Vestindo as roupas simples do meu antigo uniforme e com a nova espada presa ao quadril, eu finalmente conseguia me misturar um pouco à multidão.

Quase.

A fonte ficava exatamente onde Kagerou havia dito.

Um dragão de pedra erguia as asas no centro da praça, enquanto a água escorria delas em um arco constante.

Virei à direita.

Não demorou para avistar o prédio.

Era maior do que os edifícios ao redor, construído em pedra cinzenta e madeira escura, com um telhado de duas águas visível de vários quarteirões.

Sobre a porta dupla, um estandarte esverdeado balançava ao vento.

Nele havia o emblema de uma espada cruzada com uma pena.

Ao lado da entrada, uma placa entalhada anunciava:

GUILDA DOS AVENTUREIROS — CAPITAL DE VELDORIA

Parei diante da porta.

Respirei fundo.

Meu coração acelerou.

Dessa vez, porém, não tinha muito a ver com medo.

Era mais parecido com a sensação de antes de um primeiro dia de aula.

Olhei uma última vez para a espada presa à minha cintura.

Ainda não fazia ideia do que aquela arma significaria para mim.

Mas, de alguma forma, senti que aquele era um bom começo.

— Bom... lá vamos nós.

Empurrei a porta e entrei.
O interior da Guilda era bem mais movimentado do que eu esperava.

Um salão amplo se estendia diante de mim, com o teto alto sustentado por grandes vigas de madeira escura. Mesas ocupavam boa parte do espaço, e praticamente todas estavam cheias.

Aventureiros conversavam enquanto comiam, alguns discutiam os detalhes de um trabalho, outros simplesmente aproveitavam a manhã. De vez em quando, eu conseguia ouvir o tilintar de moedas ou alguma gargalhada vindo do fundo do salão.

Ao lado da parede oposta à entrada, havia um grande mural coberto por pergaminhos.

Provavelmente era ali que ficavam os trabalhos.

E, logo à frente dele, havia um balcão comprido onde algumas recepcionistas atendiam os aventureiros.

Parei por alguns segundos.

...

Certo.

E agora?

Eu tinha imaginado que entrar numa Guilda seria simples.

Chegar, fazer o registro e pronto.

Não tinha previsto a pequena parte em que eu precisaria descobrir sozinho onde deveria ficar.

Enquanto eu procurava alguém que parecesse responsável por aquilo, uma das recepcionistas ergueu os olhos.

Ela me observou por alguns segundos.

Então inclinou levemente a cabeça.

— Você é novo, não é?

Olhei para os lados.

Não havia mais ninguém atrás de mim.

— Eu?

Ela assentiu.

— Você.

A mulher apoiou o queixo na palma da mão e me examinou por alguns instantes.

Cabelos castanho-escuros estavam presos em um coque um pouco desfeito, com alguns fios escapando pelas laterais do rosto. Óculos de armação fina repousavam sobre o nariz, e um pequeno distintivo metálico estava preso à gola do uniforme da Guilda.

Ela estreitou os olhos.

Então sorriu.

— Dá pra perceber.

— Tão fácil assim?

— Bastante.

Ela apontou para mim com a ponta da caneta.

— Você está olhando para tudo como se estivesse visitando um zoológico.

...

Aquilo doeu mais do que deveria.

— Eu só estou tentando descobrir onde devo ir.

— Exatamente.

Ela abriu um sorriso satisfeito.

— Novato confirmado.

— Isso não é exatamente um diagnóstico muito difícil.

— Ei, não subestime minha experiência profissional.

Ela se endireitou na cadeira e fez um gesto com a mão.

— Venha. Antes que você fique parado aí até a hora do almoço.

Aproximei-me do balcão.

— Bom dia. Eu queria me registrar como aventureiro.

— Ah, sim. O famoso registro de aventureiro.

Ela pegou um formulário.

— Nome?

— Ren. Ren Mizushima.

— Ren Mizushima...

Ela repetiu enquanto escrevia.

Então ergueu os olhos.

— Mizushima?

— Sim.

— Nunca ouvi esse sobrenome.

— É...

Parei por um instante.

— Meio complicado.

Camilla ergueu uma sobrancelha.

— Complicado?

— Prefiro não entrar em detalhes.

Ela ficou me encarando.

Por alguns segundos, não disse nada.

Então sorriu.

— Entendi.

Ela voltou a escrever.

— Temos um homem misterioso.

— Não é bem isso.

— Um homem com um passado misterioso.

— Também não é isso.

— Talvez esteja fugindo de alguém?

— Não estou fugindo de ninguém!

A resposta saiu mais rápido do que deveria.

Camilla ficou em silêncio.

Então começou a rir.

— Hahaha! Você é fácil de provocar.

— ...

Eu já estava começando a me arrepender de ter vindo.

Ela levou uma mão à boca, tentando conter o sorriso.

— Desculpe. Não resisti.

— Você faz isso com todos os novatos?

— Só com os que parecem fáceis.

Ela piscou.

Aquilo não me tranquilizou nem um pouco.

Camilla voltou sua atenção ao formulário.

— Muito bem, senhor Mizushima. Vou explicar como funciona.

Ela puxou alguns pergaminhos de uma gaveta e os colocou sobre o balcão.

— O registro é simples. Primeiro, você escolhe seu nome de registro. Pode usar o seu verdadeiro ou um apelido. Depois fazemos uma avaliação básica das suas habilidades para determinar seu rank inicial.

Ela ergueu um terceiro pergaminho.

— E, por fim, você assina o contrato da Guilda.

— O que tem nesse contrato?

Camilla sorriu.

— Principalmente coisas como "a Guilda não se responsabiliza pela sua morte".

— ...

— E "não processe a Guilda caso você aceite voluntariamente um trabalho perigoso".

— Isso deveria estar em letras maiores.

— Está.

Ela virou o pergaminho.

No topo, havia uma linha escrita em letras consideravelmente maiores que o restante.

— Ah.

— Como pode ver, somos uma instituição extremamente responsável.

Não consegui evitar uma pequena risada.

— Sobre os ranks...

Ela puxou outro pergaminho e o abriu sobre o balcão.

— Todo aventureiro começa no rank F.

A sequência estava escrita verticalmente.

F → E → D → C → B → A → S

— Você sobe de rank completando trabalhos, acumulando pontos e construindo uma boa reputação. Quanto maior a dificuldade do trabalho, maior a recompensa.

Ela bateu o dedo sobre o último símbolo.

— E esse aqui é o rank S.

— O que é necessário para chegar nele?

Camilla ficou pensativa por um instante.

— Talento absurdo.

Ela levantou um dedo.

— Experiência absurda.

Levantou outro.

— E uma quantidade igualmente absurda de situações em que uma pessoa normal deveria ter morrido.

— Então é basicamente sobreviver até ficar forte o bastante?

— Viu? Você já está entendendo o espírito da coisa.

Ela deu um pequeno sorriso.

— Mas não se preocupe. A maioria das pessoas nunca chega perto do rank S.

— Imagino.

— Na verdade, se você chegar ao C algum dia, já estará acima da maioria dos aventureiros.

Ela me entregou um formulário.

— Agora preencha isso.

Peguei a pena.

— Nome, idade... e classe.

Parei.

Havia uma observação ao lado daquele campo:

Habilidades / Classe — opcional

— Classe é opcional?

— É.

Camilla apoiou o rosto na mão.

— Mas eu recomendo preencher. Ajuda a Guilda a encontrar trabalhos adequados para você.

Ela fez uma pausa.

— E evita que mandemos um especialista em plantas para matar um dragão.

Olhei para ela.

— Isso já aconteceu?

— Mais de uma vez.

— ...

Decidi não perguntar.

Comecei a preencher o formulário.

Nome.

Idade.

Outras informações.

Então cheguei à classe.

Segurei a pena por um instante.

Tecelão.

Escrevi.

Assim que terminei a palavra, percebi que Camilla havia parado de mexer nos papéis.

Ela estava olhando para o formulário.

Mais precisamente, para aquela palavra.

— ...

Seu sorriso havia desaparecido.

— Tecelão?

A voz dela estava diferente.

Levantei os olhos.

— Sim.

Camilla estendeu a mão.

— Me dê isso.

— Hã?

— O formulário.

Entreguei.

Ela o puxou para perto e releu a palavra.

Uma vez.

Depois outra.

Seu olhar passou novamente pelas letras, como se esperasse encontrar algum erro.

Finalmente, ergueu os olhos para mim.

— Você sabe o que acabou de escrever aqui?

— Minha classe?

— Sim.

— Tecelão.

Ela ficou me encarando.

— Você realmente é um Tecelão?

— Até onde eu sei.

Camilla tirou os óculos e limpou uma das lentes com um pequeno pano.

Colocou-os de volta.

Olhou para o formulário.

Depois para mim.

Depois novamente para o formulário.

— Isso é sério...

— É tão raro assim?

Ela soltou uma pequena risada, mas dessa vez não havia humor nela.

— Ren.

Ela apoiou os dois braços sobre o balcão e se inclinou na minha direção.

— Você faz ideia de quantos Tecelões eu já registrei?

Pensei.

— Nenhum?

— Exatamente.

Ela levantou um dedo.

— Eu trabalho aqui há onze anos.

Outro dedo.

— Já vi centenas de aventureiros.

Mais um.

— Guerreiros, magos, arqueiros, curandeiros, alquimistas...

Ela baixou lentamente a mão.

— Tecelões?

Balançou a cabeça.

— Nenhum.

Meu estômago apertou.

— Então é realmente tão raro?

— Muito.

Camilla pegou outro documento de uma das pilhas.

— A classe aparece nos registros históricos da Guilda de tempos em tempos. Às vezes passam décadas sem que ninguém seja registrado como Tecelão.

Ela folheou algumas páginas.

— Alguns registros dizem que um apareceu duas gerações atrás. Outros dizem que foi ainda antes disso.

— E o que aconteceu com eles?

Camilla parou de folhear.

— Essa é uma pergunta complicada.

Ela fechou o documento.

— Os registros não são muito claros.

Por algum motivo, aquilo me deixou ainda mais inquieto.

— Mas isso é bom, certo?

Camilla inclinou a cabeça.

— Depende.

— Como assim?

— Uma classe rara significa que você pode ter um potencial que a maioria dos aventureiros simplesmente não possui.

Ela ergueu um ombro.

— Isso é a parte boa.

Então o sorriso voltou.

Só que dessa vez era bem menor.

— A parte ruim é que pessoas importantes gostam muito de coisas raras.

— ...

— E algumas pessoas importantes são péssimas pessoas.

Ela apontou discretamente para o formulário.

— Sua classe ficará registrada aqui, mas não vou colocar essa informação no seu cartão de aventureiro.

— Por quê?

— Porque você não precisa anunciar para o mundo inteiro que possui uma classe rara.

Ela fez uma pausa.

— Especialmente porque você acabou de chegar.

A lembrança do homem da cicatriz surgiu imediatamente na minha cabeça.

A pergunta sobre meu uniforme.

Sobre alguma casa nobre.

A insistência dele em descobrir de onde eu vinha.

Meu aperto na pena aumentou.

Camilla percebeu.

Seu olhar ficou mais sério.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não.

Respondi depois de um instante.

— Só... tive um encontro estranho antes de vir para cá.

Ela me observou por alguns segundos.

Não insistiu.

— Então tenha cuidado.

Seu tom era simples.

— Até você entender melhor como este lugar funciona, não saia contando sua classe por aí.

Assenti.

— Entendi.

Camilla voltou a sorrir.

— Ótimo.

Ela pegou o formulário.

— Nesse caso, vou manter isso em sigilo.

E, como se tivesse decidido que o assunto sério já durara tempo suficiente, seu olhar desceu até minha cintura.

Parou na espada.

Uma sobrancelha se ergueu.

— E isso?

Olhei para a espada.

— Isso?

— A espada.

— Ah.

Toquei levemente no cabo.

— Ainda não sei usar.

Camilla piscou.

Uma vez.

Duas.

— ...

Ela olhou para a espada.

Depois para mim.

Depois para a espada novamente.

— Você veio se registrar como aventureiro...

— Sim.

— Tem uma classe extremamente rara...

— Sim.

— E está carregando uma espada que não sabe usar.

— ...Sim.

Camilla levou uma mão à testa.

— Maravilhoso.

— O quê?

— Nada.

Ela respirou fundo e apontou para a espada.

— Quem colocou isso na sua mão?

— Um conhecido.

— Ele sabia que você não sabe lutar?

— Sabia.

— E mesmo assim mandou você comprar uma espada?

— Disse que eu precisaria aprender a usar uma o quanto antes.

Camilla ficou em silêncio.

Então assentiu lentamente.

— Pela primeira vez hoje, alguém sensato apareceu nessa história.

— Você acha?

— Acho.

Ela apoiou os braços no balcão.

— Uma classe rara pode ser maravilhosa, mas não vai impedir uma flecha de atravessar sua cabeça.

Olhou para a espada.

— E, pelo que estou vendo, você ainda não consegue nem impedir a própria espada de fazer isso com você.

— Isso é uma possibilidade real?

— Bastante.

— ...

Camilla abriu um sorriso.

— Mas não se preocupe.

Ela guardou o formulário.

— Se você sobreviver aos primeiros meses, provavelmente aprende.

— "Provavelmente"?

— Não gosto de fazer promessas que não posso cumprir.

Ela se levantou da cadeira.

Pegou um pequeno cartão e fez um gesto para que eu a acompanhasse.

— Vamos.

— Para onde?

— Avaliação de habilidades.

Ela começou a andar em direção ao corredor lateral.

Depois parou e olhou por cima do ombro.

— Ah, e Ren?

— Sim?

Camilla sorriu.

— Tente não morrer.

— Isso está começando a parecer uma exigência oficial da Guilda.

— Ainda estamos discutindo isso.

Ela voltou a andar.

Suspirei e a segui.

Pelo jeito, meu primeiro dia como aventureiro prometia ser bem mais complicado do que eu imaginava.
A avaliação foi bem mais simples do que eu esperava.

Camilla me levou até um pequeno pátio interno, onde um homem de meia-idade aguardava ao lado de um pedestal de pedra.

Sobre ele havia um cristal transparente, pouco maior que meu punho.

— É só colocar a mão aqui — explicou o homem, apontando para a base do cristal. — Não precisa fazer nada. Ele mede sozinho.

— Só isso?

— Só isso.

Olhei para Camilla.

Ela deu de ombros.

— Não parece tão difícil, não é?

Aproximei-me do pedestal e coloquei a palma da mão sob o cristal.

Estava frio.

Por alguns segundos, nada aconteceu.

Então senti algo se mover dentro de mim.

Era mana.

Um fluxo fino saiu de algum lugar no meu peito, percorreu meu braço e chegou até a palma da mão. Não precisei puxá-lo ou conduzi-lo.

A mana simplesmente... fluiu.

Entrou no cristal como água encontrando seu próprio caminho.

No instante seguinte, uma luz suave surgiu dentro dele.

O avaliador, que até então parecia completamente desinteressado, ergueu os olhos.

— Hm.

A luz aumentou um pouco.

Ele se aproximou, observando o cristal com atenção.

— Controle bastante preciso.

— Isso é bom?

Ele anotou alguma coisa em uma folha.

— Para alguém sem experiência, é.

Camilla cruzou os braços.

— Eu disse que ele era interessante.

— Você acabou de conhecê-lo há quinze minutos.

— E já estou certa.

O homem apenas suspirou e continuou escrevendo.

Pouco depois, a avaliação estava encerrada.

Quando voltei ao balcão, Camilla já tinha meu cartão pronto.

Ela o segurou entre dois dedos e o ergueu diante do meu rosto.

— Parabéns.

Peguei o cartão.

Meu nome estava gravado nele, junto de um pequeno retrato e do símbolo do rank F.

Meu primeiro registro oficial neste mundo.

Por algum motivo, vê-lo ali me deixou estranhamente feliz.

— Agora você é oficialmente um aventureiro da Guilda de Veldoria.

— Finalmente.

— Não parece tão animado.

— Estou.

— Seu rosto não concorda.

— Eu não sou muito expressivo.

Camilla me encarou por um segundo.

— Percebi.

Guardei o cartão.

— Vou cuidar bem dele.

— Faça isso. Se perder, você vai ter que preencher uma papelada enorme.

Ela fez uma pausa.

— E eu vou ter que conferir.

— Entendi.

— Então, por favor, não perca.

— Pode deixar.

— Ótimo.

Ela se virou para o mural de trabalhos.

— Agora vem a parte importante.

Puxou três pergaminhos.

— Seu primeiro trabalho.

Ela colocou os três sobre o balcão.

— Este é coleta de flor-de-lua. É usada em poções básicas de cura e cresce numa floresta a menos de uma hora daqui. Baixo risco, pagamento modesto.

Apontou para o segundo.

— Extermínio de slimes numa fazenda ao norte. Estão destruindo as plantações. Paga um pouco melhor, mas envolve combate.

Por fim, ergueu o terceiro.

— E este é uma escolta curta. Uma caravana de mercadores precisa chegar a um vilarejo próximo. Houve relatos de bandidos na estrada.

Olhei para os três.

— Eu vou ficar com a flor-de-lua.

Camilla piscou.

— Essa foi rápida.

— Ainda não sei lutar. Não vejo motivo para começar meu primeiro dia procurando problemas.

Ela sorriu.

— Sensato.

Camilla carimbou o pergaminho.

— Confesso que esperava que você escolhesse alguma coisa mais idiota.

— Por quê?

— Você tem cara de quem faria isso.

— Que tipo de cara é essa?

— Cara de novato.

— Isso não explica nada.

— Exatamente.

Ela entregou o trabalho e então apontou para um pequeno pergaminho com o mapa da região.

— A floresta fica a leste, seguindo a estrada principal. O prazo é de três dias.

Olhei o mapa.

— Parece simples.

— É.

Camilla apoiou o queixo na mão.

— Mas tente não transformar uma coleta de flores em uma missão de sobrevivência.

— Vou tentar.

— Não.

Ela apontou para mim.

— Não tente. Faça.

Fiquei em silêncio por um instante.

— ...Certo.

Camilla sorriu, satisfeita.

— Boa sorte, Ren. E volte inteiro.

— Pode deixar.

Dei alguns passos, mas parei.

Olhei novamente para o cartão em minha mão.

Ren Mizushima — Rank F.

Pela primeira vez desde que cheguei àquele mundo, aquilo parecia realmente oficial.

Eu era, de fato, um aventureiro agora.

E meu primeiro trabalho seria... Colher flores.


...

Bem.

Todo grande aventureiro precisava começar de algum lugar.
◆ ◆ ◆